Uma pesquisa desenvolvida pela Embrapa em parceria com a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) criou uma rota nanotecnológica capaz de transformar o lodo de Estações de Tratamento de Água (ETAs) em fertilizante de liberação lenta. Por meio de um processo hidrotérmico, a inovação neutraliza o alumínio tóxico do resíduo e incorpora nutrientes como nitrogênio e potássio, convertendo em insumo agrícola um passivo ambiental que representa desafios logísticos e financeiros. O aproveitamento do lodo de ETA é limitado por características como composição variável, baixo teor de matéria orgânica e elevados teores de sais de alumínio.
A nova tecnologia busca superar essas limitações e possibilita que o fertilizante, produzido na forma de grânulos, atue como veículo para microrganismos benéficos às plantas. Com resultados positivos obtidos em laboratório e em casa de vegetação, o próximo passo da iniciativa é prospectar empresas para estruturar um projeto-piloto industrial e avaliar a produção em maior escala, integrando fertilização e proteção biológica.
Qual a diferença em relação ao lodo de esgoto?
Diferentemente do lodo de esgoto gerado nas Estações de Tratamento de Efluentes (ETEs), que apresenta elevada matéria orgânica e já vem sendo estudado para uso agrícola, o lodo de ETA possui baixa carga orgânica e elevada concentração de sais de alumínio provenientes dos coagulantes utilizados no tratamento da água. Segundo o coordenador do projeto na Embrapa Instrumentação (SP), Caue Ribeiro, o alumínio livre pode ser tóxico às plantas e prejudicar o desenvolvimento das raízes e a absorção de nutrientes, como o fósforo.
“A tecnologia desenvolvida transforma esse resíduo em matéria-prima para insumos agrícolas, agregando valor a um material que tradicionalmente representa custos de manejo e de descarte, com potencial para aumentar a eficiência do uso de nutrientes”
, diz Ribeiro.
O projeto, liderado pela Embrapa Instrumentação, contou com a participação da Embrapa Pecuária Sudeste (SP) e da Embrapa Meio Ambiente (SP) e apoio do Programa de Apoio à Pesquisa em PITE (Parceria para Inovação Tecnológica), da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). A iniciativa teve também suporte da Embrapa Suínos e Aves (Concórdia, SC) e da Embrapa Agroenergia (DF), em experimentos paralelos com outras fontes. O estudo, desenvolvido durante 4 anos, envolveu mais de R$ 2,7 milhões e uma equipe multidisciplinar.
Como funciona a geração e destinação do lodo pela Sabesp?
A Sabesp gera cerca de 124 mil toneladas de lodo desidratado por ano nas 208 ETAs que operam no estado de São Paulo. O transporte, realizado principalmente por caminhões, pode chegar a 16 viagens diárias nas maiores unidades, e o custo médio de transporte e destinação é de aproximadamente R$ 300 por tonelada. Segundo Marco Barros, diretor corporativo de Produção de Água, Tratamento de Esgoto e Manutenção Estratégica da Sabesp, um dos desafios da companhia é encontrar alternativas sustentáveis para o aproveitamento desse material e reduzir sua destinação a aterros sanitários.
“A pesquisa desenvolvida na ETA Vargem Grande Paulista, em parceria com a Embrapa, segue nessa direção”
, diz o diretor. Segundo ele, a expectativa é consolidar uma alternativa aplicável também a outras estações com características semelhantes, tendo entre as próximas etapas a validação agronômica em campo e os procedimentos para eventual registro no Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária).
Qual é a rota de conversão química?
Os pesquisadores desenvolveram uma rota de conversão hidrotérmica para produzir concentrados zeolíticos — minerais compostos de silício e alumínio — a partir do lodo de ETA. O material obtido é utilizado na formulação de grânulos fertilizantes, combinados com amido plastificado com ureia, para formar um fertilizante de nitrogênio (N) e de potássio (K) de liberação lenta. O processo ocorre em autoclave, sob condições controladas de temperatura e pressão. Segundo a pesquisadora de pós-doutorado Raquel Cardoso Machado, o tratamento reorganiza as partículas do resíduo, formando cristais de sodalita, um tipo de zeólita. Esse material retém o alumínio em suas estruturas, reduzindo a possibilidade de ele ser liberado no ambiente e tornando o insumo adequado à aplicação em lavouras. A sodalita também pode ser utilizada na recuperação de potássio presente em digestatos (efluentes) da suinocultura. O grânulo fertilizante incorpora o nitrogênio e o potássio (NK) em sua matriz, com alta resistência física e biodegradação gradual no solo.
Quais foram os resultados na avaliação agronômica?
Experimentos em casa de vegetação conduzidos na Embrapa Pecuária Sudeste utilizaram azevém (Lolium multiflorum) e capim-piatã (Urochloa brizantha) como plantas-modelo. Os resultados mostraram aumento da eficiência agronômica, principalmente na produção de biomassa e na absorção de nutrientes. Segundo Alberto Bernardi, pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste, os testes com as gramíneas avaliaram se a sodalita seria capaz de liberar nitrogênio e potássio gradualmente, aumentando sua eficiência e reduzindo perdas. Foram realizadas avaliações químicas para determinar macronutrientes e micronutrientes (como fósforo, potássio, cálcio, magnésio, ferro, cobre, manganês e zinco) e análises por espectroscopia fotoacústica e cromatografia iônica para confirmar a retenção do nitrogênio.
“A zeólita retém mais o nitrogênio, evita a emissão de gases e mantém os nutrientes disponíveis para que as raízes das plantas os absorvam em maior quantidade”
, afirma a pesquisadora Ana Rita Nogueira, coordenadora das análises químicas e também pesquisadora da Embrapa Pecuária Sudeste. No azevém, os tratamentos com sodalita granulada apresentaram eficiência agronômica 2 a 3 vezes superior à do controle. Tendência semelhante foi observada para a braquiária. Para Bernardi, a tecnologia pode contribuir para aumentar a eficiência dos fertilizantes, o que é relevante considerando que o Brasil importa cerca de 80% da ureia consumida e parte do nitrogênio aplicado pode ser perdida por volatilização.
Além da nutrição mineral, a formulação foi avaliada como veículo para microrganismos promotores do crescimento vegetal. Nos testes, o grânulo não se mostrou adequado para a incorporação do fungo Trichoderma asperelloides, utilizado no controle biológico de doenças, mas apresentou compatibilidade e viabilidade para a bactéria Bacillus megaterium, que favorece o crescimento das plantas e melhora o aproveitamento de nutrientes. A bactéria foi incorporada aos grânulos e monitorada por quase 5 meses, demonstrando a capacidade do material como veículo protetor para armazenamento e aplicação de inoculantes biológicos.
É possível utilizar o lodo in natura?
Na Embrapa Meio Ambiente, foram avaliados os efeitos da incorporação de 2 tipos de lodo de ETA em um latossolo tropical, em doses que variaram de 0% a 100%, para determinar concentrações adequadas para uso in natura. Em estudo de doutorado, Paul Esteban Pherez Perrony observou diferentes resultados com milho e feijão cultivados em casa de vegetação.
“O feijão apresentou sensibilidade moderada, com redução da biomassa em doses superiores a 25%, enquanto o milho tolerou a incorporação de lodo em concentrações de até 50%”
, disse Perrony. Embora tenha sido observado acúmulo de metais nos tecidos vegetativos das plantas submetidas às doses mais elevadas, não houve acúmulo nos grãos. O silício livre e o quartzo dos lodos contribuíram para reduzir o alumínio nos grãos de feijão.
“O silício livre e o quartzo fornecidos pelos lodos contribuíram para essa redução, com os níveis de alumínio passando de 31,26 mg/kg no tratamento-controle para aproximadamente 20 mg/kg”
, observou Perrony.
Com base nos resultados, Wagner Bettiol, orientador do doutorando, aponta que a aplicação de doses adequadas viabiliza a reutilização agronômica do lodo de ETA.
“Para a produção de alimentos, os resultados indicam o uso de doses de até 5% em proporção peso por peso. Já para a construção de tecnossolos e a restauração de áreas degradadas, doses de até 15% (p/p) mostraram-se adequadas, sem provocar distúrbios nutricionais significativos nas condições avaliadas”
, afirma Bettiol. Em outro estudo, o lodo de ETA in natura foi avaliado como fertilizante em combinação com Trichoderma asperelloides para o manejo da murcha de Fusarium, causada por Fusarium oxysporum f. sp. cubense, indicando que o uso do lodo não aumentou a severidade da doença. O texto original da pesquisa foi publicado em 27 de outubro de 2026.



















