Pesquisadores do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON) da USP (Universidade de São Paulo) comprovaram que a diversificação de culturas e o uso de plantas de cobertura no Rio Grande do Sul protegem as lavouras contra secas e enchentes, elevando a produtividade em até 76% acima da média estadual. O estudo, conduzido ao longo de três safras (entre 2022 e 2025), comparou áreas agrícolas tradicionais com propriedades que mantiveram a terra coberta por vegetação entre as safras comerciais.
Em contrapartida, as lavouras que adotaram o modelo tradicional de cultivo — como a alternância contínua de apenas um tipo de grão após o outro (a exemplo do trigo seguido pela soja) ou a utilização de uma única espécie para cobrir o solo — registraram um desempenho bem mais fraco. Nessas áreas, a colheita ficou apenas 8% acima da média geral do Estado e sofreu fortes oscilações na safra colhida de um ano para o outro, variando de 33% a 39% para cima ou para baixo, mostrando que o sistema simples é muito mais vulnerável às variações climáticas.
Os resultados da pesquisa foram detalhados em artigo publicado em 22 de outubro na revista Agriculture, Ecosystems & Environment e apresentados pelo professor da Esalq-USP Maurício Roberto Cherubin em palestra ministrada durante a Fapesp Week Países Baixos. “O estudo aponta que, para manter o solo saudável e funcional, é indispensável garantir a presença de plantas vivas e cobertura vegetal durante todo o ano”, explicou Cherubin à Agência Fapesp.
Cherubin explicou que a introdução de diferentes espécies atua na manutenção dos recursos da terra: “Quando se introduz uma mistura diversificada de plantas de cobertura, é como se oferecêssemos um cardápio variado e contínuo para a terra. Isso mantém os organismos do solo ativos o ano inteiro, otimizando a ciclagem de nutrientes, a fixação biológica de nitrogênio e a disponibilização de fósforo para a cultura principal”.
De acordo com o pesquisador, a escolha do Rio Grande do Sul como campo experimental justifica-se por sua posição estratégica na agricultura brasileira e sua extrema vulnerabilidade climática. O Estado responde por 8,4% da produção nacional de grãos. As lavouras de soja gaúchas ocupam 6,8 milhões de hectares, o que representa 14,4% de toda a área plantada com o grão no Brasil e equivale a 3,4% do mercado global. No entanto, o Estado tem sofrido com eventos extremos recorrentes: uma sequência de secas severas de 2019 a 2023, enchentes históricas na safra 2023/2024 (que causaram perdas estimadas em R$ 45 bilhões só em lavouras de soja não colhidas) e o retorno de estiagens intensas na safra 2024/2025.
Como a pesquisa foi feita nas lavouras gaúchas?
Para mensurar as interações entre solo, práticas de manejo, produtividade e oscilações meteorológicas nas lavouras gaúchas em cenários reais de produção, os pesquisadores analisaram dados de 13 experimentos conduzidos por agricultores em propriedades comerciais distribuídas pelo Estado. Nos sistemas mais complexos analisados, os produtores combinaram espécies comerciais (soja, milho, trigo e canola) com uma rica variedade de plantas de cobertura e serviço: gramíneas (aveia-preta, aveia-branca, aveia-ucraniana, centeio, triticale e milheto), leguminosas (ervilhaca), dicotiledôneas de decomposição acelerada (trigo-mourisco) e brassicáceas (nabo-forrageiro).
Durante 3 safras seguidas, os pesquisadores utilizaram dados climáticos de satélites da Nasa (a agência espacial norte-americana) para comparar o volume de chuvas nas lavouras com a média dos últimos 30 anos. O período analisado foi marcado por extremos: as safras de 2022/2023 e 2024/2025 enfrentaram secas severas, com chuvas até 54% abaixo do normal, figurando entre os anos mais secos já registrados na região. Já a safra de 2023/2024 sofreu o oposto, recebendo um volume de água 40% superior à média. Como todas as propriedades rurais avaliadas passaram por essas mesmas condições climáticas severas ao mesmo tempo, os cientistas conseguiram isolar o clima da equação, comprovando que as diferenças nos resultados das colheitas ocorreram pelas técnicas de plantio adotadas.
Nas 13 fazendas participantes — localizadas em municípios como São Luiz Gonzaga, Rolador, Bozano, Panambi, Boa Vista das Missões, Sarandi, Santa Cecília do Sul, Não-Me-Toque, Lagoa dos Três Cantos, Quinze de Novembro, Jacuizinho, Júlio de Castilhos e São Gabriel —, foram coletadas 78 amostras de solo na profundidade de 0 a 10 centímetros. Para entender a saúde da terra, os cientistas analisaram 12 características das amostras, divididas nas frentes química, física e biológica, sintetizadas em quatro funções de saúde do solo: regulação bioquímica, suporte físico, armazenamento de água e estocagem de carbono.
As análises mostraram que diversificar as plantações aumentou significativamente a capacidade do solo de armazenar água, independentemente da quantidade de argila presente na terra. Como explica Cherubin, vice-coordenador do CCARBON — um CEPID financiado pela FAPESP —, a retenção hídrica decorre da estruturação biológica gerada pelo trabalho das raízes e microrganismos. As raízes profundas de plantas de cobertura abrem bioporos no solo. “Quando a cultura principal, como a soja ou o milho, é semeada em seguida, suas raízes encontram caminhos abertos para crescer em profundidade sem gastar energia excessiva, alcançando umidade armazenada nas camadas mais profundas durante os períodos de seca”, explicou Cherubin.
O estudo também mostrou a vulnerabilidade a catástrofes: durante as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, quase metade (44%) dos agricultores que adotavam a diversificação precisou mudar os planos. Com o solo encharcado e a colheita atrasada, eles abriram mão das plantas de cobertura e semearam trigo comercial para tentar recuperar o dinheiro perdido. Para Cherubin, os achados são essenciais para o futuro da agricultura de sequeiro, pois o solo saudável funciona como um amortecedor natural contra a instabilidade do clima. A pesquisa foi publicada originalmente pela Agência Fapesp em 03 de novembro de 2026.

















