Segunda-feira, 2 de novembro de 2026 · São Paulo
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Debate no Congresso sobre tarifa zero no transporte se estende desde 2021

Propostas de gratuidade no transporte público tramitam no Parlamento há anos, mas PEC do governo Lula foca em finais de semana e feriados.

Em resumo

  • O Congresso debate a tarifa zero no transporte desde 2021, com 11 projetos similares à proposta atual do Executivo.
  • A PEC do governo prevê custo de R$ 12 bilhões, financiados por 26,8% das emendas parlamentares impositivas.
  • Mais de 100 municípios brasileiros já possuem transporte gratuito universal ou parcial, como em São Paulo e Brasília.

O Congresso Nacional discute ao menos desde 2021 a implementação da gratuidade do transporte público urbano no país. O debate, porém, nunca avançou no Parlamento. Levantamento mostra que há outros 11 projetos semelhantes à PEC (proposta de emenda à Constituição) enviada pelo Executivo para implementar a tarifa zero aos finais de semana. A maior parte das propostas são de parlamentares do PT, PC do B e PSOL. Outros projetos, mais antigos, apresentados na Câmara dos Deputados também versam sobre o assunto, mas com recortes específicos, como para pessoas de baixa renda, em municípios atingidos por desastres naturais e gratuidade temporária para desempregados.

Essas propostas, porém, não foram consideradas no levantamento porque não se assemelham à PEC enviada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A primeira vez que o tema foi debatido entre os parlamentares foi por meio de uma emenda apresentada pelo deputado Jilmar Tatto (PT-SP) que visava incluir a gratuidade no Marco Legal do Transporte, apresentado em 2021 e sancionado em 2026. O marco, porém, avançou sem a sugestão da tarifa zero.

Em outubro deste ano, o Palácio do Planalto reacendeu o debate ao enviar uma PEC para o Congresso sobre o assunto. O texto proposto prevê a gratuidade do transporte público nos finais de semana e feriados, considerando, sobretudo, a aprovação do fim da escala 6×1. A ideia do governo é promover mais oportunidades para facilitar o lazer nos dias de folga dos trabalhadores. Segundo o governo federal, o custeio do programa seria por meio das emendas parlamentares impositivas, destinando 26,8% delas para a gratuidade do transporte. O custo estimado é de R$ 12 bilhões, do montante de R$ 44,8 bilhões, para a implementação da tarifa zero no país.

“A medida é compatível com o equilíbrio fiscal, não implica aumento de despesa primária e nem afeta a meta de resultado primário, pois promove a destinação de recursos no âmbito do montante de emendas parlamentares de execução obrigatória já previstas na Constituição Federal”, afirma o texto do Planalto.

Segundo a organização Tarifa Zero, mais de 100 municípios do Brasil já oferecem transporte gratuito universal para a população. Também existem cidades que já implementaram a gratuidade parcial, como aos domingos e feriados. É o caso de São Paulo e Brasília (DF). Já Palmas (TO) oferece passe livre nos dois dias do final de semana. Em Curitiba (PR), embora ainda não haja gratuidade, a tarifa é reduzida em 50% aos domingos e feriados.

Diferenças legislativas

A proposta enviada pela Presidência ao Congresso traz diferenças em relação à Lei de Mobilidade Urbana, sancionada em 2012, e ao Marco Legal do Transporte Público Coletivo Urbano, de 2026. Enquanto os projetos anteriores criam a estrutura jurídica geral e as regras de financiamento para que estados e municípios possam aplicar a tarifa zero por conta própria, o projeto da Presidência é uma ação orçamentária e federal direta com escopo específico. Tanto a Lei da Mobilidade Urbana quanto o Marco Legal do Transporte Público Coletivo Urbano são legislações estruturantes gerais que definem as regras do setor e autorizam os entes locais a adotarem subsídios. Não impõem uma gratuidade obrigatória nacional imediata nem definem verbas diretas da União.

Já a PEC enviada pelo Planalto foca diretamente em instituir a gratuidade no transporte público aos finais de semana e feriados em nível nacional. Além disso, as legislações anteriores autorizam os municípios e estados a buscarem fontes alternativas de custeio, sem vincular uma verba federal obrigatória e contínua, enquanto a proposta da Presidência estabelece a vinculação direta de recursos federais por meio das emendas parlamentares impositivas que sejam destinadas ao financiamento da gratuidade nos finais de semana.

O nó do financiamento

O principal obstáculo da proposta é o financiamento. Segundo a Constituição, o transporte público é uma atribuição dos municípios, e muitas cidades já utilizam subsídios dos cofres públicos para bancar o transporte coletivo, mesmo com a cobrança de passagens. Com a gratuidade aos finais de semana, esse aporte precisaria aumentar. O presidente Lula mencionou o uso de recursos de emendas parlamentares para financiar a medida, mas especialistas classificam a estratégia como frágil.

Apontado como o maior entusiasta e especialista do assunto dentro do Partido dos Trabalhadores, Jilmar Tatto tem detalhado que a implementação da medida seria feita em etapas: começaria com a gratuidade aos domingos, avançaria para desempregados e trabalhadores noturnos, até chegar à tarifa zero total. O custo estimado para a implementação completa seria de aproximadamente R$ 16 bilhões. Também está sendo proposta uma mudança nos contratos com as empresas de ônibus nos municípios, substituindo o pagamento por passageiro pelo pagamento por quilômetros rodados. Quanto ao financiamento, ainda não há uma solução fechada, mas pessoas a par da proposta estudam a criação de um fundo — uma espécie de “SUS do transporte” — para repassar recursos às prefeituras.

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