Aos 14 anos, Leonardo Ciorlia encontrou na poesia uma forma de dizer justamente aquilo que, muitas vezes, parece impossível explicar. Aluno do 9º ano, o adolescente de Campinas (SP) começou a escrever poemas há cerca de dois anos e agora se prepara para lançar o primeiro livro, O Avesso de Nós, com 39 textos. A relação com a escrita, no entanto, começou muito antes. Filho e neto de leitores, Leonardo cresceu cercado por livros e conta que sempre teve acesso à leitura. Primeiro vieram as histórias que inventava, depois as músicas e, mais tarde, a poesia.
Foi também pela leitura que ele encontrou uma das principais referências para sua escrita: a autora Clarice Lispector. O primeiro contato aconteceu por acaso, durante uma ida a uma livraria. “Eu comprei inicialmente não para eu ler, mas para a minha mãe. Só que aí eu não achei legal, eu me apaixonei! Falei: ‘ossa, o que que é isso?’ Porque eu nunca tinha experimentado nada parecido”, contou. Depois disso, Leonardo passou a ler outras obras da autora e chegou a seis livros. A influência também entrou no próprio processo de criação: cinco poemas de O Avesso de Nós têm epígrafes de Clarice.
Segundo ele, mais do que servir como referência, a escritora mostrou que havia outras maneiras de transformar uma ideia ou sentimento em texto. Em alguns casos, uma frase lida em um livro de Clarice acabou levando a outra frase na cabeça de Leonardo e, depois, a um novo poema. “Foi uma porta mesmo que abriu”, resume.
Mas a inspiração não vem apenas dos livros. Para Leonardo, uma flor no quintal de casa, a chuva, uma música ou até uma frase que aparece na cabeça durante a madrugada podem virar matéria-prima para um poema. Segundo o jovem poeta, o processo costuma começar de maneira inesperada. Um exemplo está no poema “Paredes”. A ideia surgiu depois de uma conversa com o psicólogo, que contou ao adolescente a história de um paciente que sentia uma solidão difícil de explicar. Para descrever a sensação, o homem dizia imaginar que as paredes se aproximavam dele. A imagem ficou na cabeça de Leonardo e acabou virando poema. “Eu peguei essa metáfora das paredes fechando e escrevi o poema”, contou.
Apaixonado por flores, Leonardo conta que um hibisco no quintal do vizinho serviu de gancho para um dos textos que fecha o livro. “Tem uma flor ali no quintal que é um hibisco. Eu me apaixonei pelo hibisco, tanto que o poema que acaba o livro é sobre esse hibisco, e aí tem reflexões em torno dele”, contou. Antes de pensar em publicar um livro próprio, Leonardo já havia escrito dezenas de poemas. Um dos primeiros, “O Peso do Não Dito”, foi o que abriu o seu olhar para a ideia de publicação. A primeira experiência veio quando o jovem enviou o texto para um edital e foi selecionado para participar de uma coletânea, autografando a obra durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro.
Depois disso, começou a reunir o que já havia escrito e percebeu que tinha material suficiente para uma publicação própria. “Eu comecei a reunir as coisas que eu tinha, reuni, e vi que dava um livro meu. Eu falei assim: é, agora é a hora mesmo de publicar.” A partir daí, Leonardo procurou editoras pelas redes sociais até encontrar uma que aceitasse publicar o projeto. O livro levou cerca de oito meses para ser construído e foi finalizado no fim de setembro de 2025. Agora a obra já está disponível para a compra, no site da editora.
Para o adolescente, a poesia também acabou se tornando uma maneira de organizar os próprios pensamentos e sentimentos. Segundo Leonardo, a escrita não segue uma rotina rígida. “Às vezes eu estou estressado, sentindo alguma coisa e não vou conseguir render. Aí eu acabo escrevendo um poema que alivia a minha tensão. Aí consigo fazer as coisas no meu dia a dia. Então, só me ajuda em tudo”, contou. O próprio título do livro, O Avesso de Nós, faz referência ao que existe no interior de cada pessoa e nem sempre é fácil de enxergar. “Eu queria que as pessoas, ao ler, conseguissem enxergar coisas em si mesmas, se alegrar com coisas em si mesmas, que a gente tem dificuldade de enxergar”, disse.



