Terça-feira, 20 de outubro de 2026 · São Paulo
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Americanos enfrentam alta da inflação com bicos, cortes e malabarismos

Com alta de preços e combustíveis recordes nos EUA, cidadãos relatam esforço extremo para pagar contas e sustentar famílias.

Em resumo

  • A inflação nos Estados Unidos subiu 3,7% nos últimos 12 meses até setembro.
  • Moradores relatam custos altíssimos com combustível e alimentação básica, como carne moída.
  • Famílias cortam viagens, mudam hábitos de consumo e buscam múltiplos empregos para sobreviver.

Kathryn Vaughn voltou ao trabalho em uma escola do ensino fundamental na zona rural do Estado americano do Tennessee neste segundo semestre com muito mais estresse sobre o próprio orçamento do que nos anos anteriores. Aos 46 anos, ela está fazendo malabarismos para prover sua família com o aumento dos custos de tudo, segundo suas próprias palavras. Vaughn trabalha em três empregos diferentes, incluindo como professora de artes em uma escola primária, para manter sua família de quatro pessoas frente à inflação que continua a subir nos Estados Unidos.

O índice de inflação de setembro no país superou as previsões. Nos últimos 12 meses, os preços subiram em 3,7%, contra 3,4% nos 12 meses até agosto, segundo os números oficiais publicados na quarta-feira (14/10). Os altos preços da energia elevaram o custo de vida nos Estados Unidos. Os preços do óleo diesel atingiram recordes de alta e o custo da gasolina também subiu, atingindo o bolso do cidadão comum americano.

Depois das aulas, Vaughn segue para seu segundo emprego como facilitadora em um programa para jovens em risco. O filho de cinco anos pode acompanhá-la, o que reduz a necessidade e o custo da creche para a família Vaughn. "Já fiz coisas incrivelmente insanas para sobreviver", ela conta. "Fui modelo de mãos para uma joalheria local, vendo tudo o que fica por mais de 10 minutos na minha casa em sites de troca no Facebook e revendo roupas no ThredUp e no Poshmark [plataformas online]." Ela também escreve obituários para ganhar um dinheiro extra, mas tudo isso ainda não é suficiente para sustentar sua família.

Punal Bhavsar, de 39 anos, achava que 2026 seria o ano em que ele juntaria dinheiro suficiente para comprar uma casa, mas afirma que o aumento do custo dos produtos dificultou a economia. O que mais pesou para Bhavsar é o preço da gasolina. "Dirijo um carro que usa gasolina premium", segundo ele, "e, infelizmente, na Califórnia e na região onde moro, ela custa quase US$ 6 [por galão]", cerca de R$ 8 por litro. Em novembro, haverá eleições de meio de mandato nos Estados Unidos e a tumultuada economia do país certamente estará na mente dos eleitores, sendo que Bhavsar afirma que esta única questão pode decidir seu voto.

O Índice Gallup de Confiança na Economia resume as avaliações dos cidadãos americanos sobre o panorama e as condições econômicas do momento em uma escala de -100 a +100. Em setembro, o índice chegou a -40. Em uma pesquisa do jornal britânico The Guardian realizada em meados do ano, o percentual de entrevistados que acreditam que os Estados Unidos enfrentam uma crise de custo de vida atingiu impressionantes 95%.

Neste final de ano, as pessoas encontram formas de lidar com a situação em todo o país. Caitlin Green mudou-se para Utah há sete anos e recebeu um conselho da mãe: "Se, algum dia, você precisar de uma refeição fácil e barata, procure sempre carne moída." Mas, com o aumento dos preços, ela tem tido dificuldade para seguir a orientação. Green lembra de já ter pago US$ 4,40 (cerca de R$ 22) por 1 kg de carne moída, enquanto agora paga US$ 17,60 (cerca de R$ 88), fazendo com que ela e o marido escolham alternativas como frango ou peru moído.

A carne moída "é quase… não um luxo, como o bife… mas está a ponto de se tornar um luxo", segundo ela. Green e seu marido gastavam cerca de US$ 200 (R$ 1 mil) por mês no mercado e agora gastam mensalmente US$ 400 (cerca de R$ 2 mil). "Entendo que a inflação existe, mas acho que nunca na vida vi a inflação subir tão rápido e de forma tão drástica", ela conta.

Para a professora Vaughn, as decisões difíceis continuam. Ela levou um susto com a conta de US$ 130 (cerca de R$ 650) de material escolar para o filho de cinco anos e decidiu que o menino passará a comprar o almoço na escola todos os dias. A família também desistiu de uma viagem para a Flórida neste segundo semestre para ver os pais de Vaughn devido ao preço alto da gasolina. "Está tudo difícil", ela conta. "O custo de tudo está absurdo. Gasolina para ir trabalhar, meu seguro aumentou, alimentar dois filhos e um marido. É demais."