Sexta-feira, 23 de outubro de 2026 · São Paulo

El Niño muda a cor do oceano e ameaça a vida marinha

Imagens de satélite da NASA revelam que o Oceano Pacífico passou de tons esverdeados para um azul mais intenso entre 2025 e 2026.

Em resumo

  • Imagens da NASA mostram que partes do Pacífico passaram de verde para azul entre 2025 e 2026.
  • O El Niño aquece as águas e reduz o fitoplâncton, ameaçando a cadeia alimentar marinha.
  • Temperaturas no Pacífico tropical estão cerca de 4 °C acima da média durante o fenômeno.

Imagens de satélite da NASA mostram que partes do Oceano Pacífico passaram de tons esverdeados para um azul mais intenso entre 2025 e 2026. A mudança está associada ao El Niño, fenômeno climático que aquece as águas do oceano e, segundo pesquisadores, está provocando uma redução nas populações de fitoplâncton, organismos microscópicos essenciais para os ecossistemas marinhos. A alteração foi registrada pelo instrumento Ocean Color Instrument, a bordo do satélite PACE, que monitora variações na luz visível para analisar a distribuição desses organismos. O evento atual pode se tornar o El Niño mais forte já registrado, com temperaturas no Pacífico tropical cerca de 4 °C acima do normal, segundo o artigo publicado pelo site IFLScience.

Por que o oceano está ficando mais azul?

O fitoplâncton reúne milhares de espécies de organismos microscópicos que realizam fotossíntese e produzem diferentes pigmentos, responsáveis por parte das variações de cor dos oceanos. Na região equatorial do Pacífico, espécies verdes ricas em clorofila costumam ser predominantes. Esses organismos dependem de águas mais frias e ricas em nutrientes. Durante o El Niño, o aquecimento da superfície do oceano reduz a subida de águas profundas que transportam esses nutrientes, prejudicando o desenvolvimento do fitoplâncton. Os dados do satélite PACE permitem observar essa mudança. Tons mais azuis geralmente indicam menor concentração de fitoplâncton, enquanto áreas esverdeadas e amareladas sugerem concentrações mais elevadas. Ao longo de boa parte de 2025, uma faixa de águas esverdeadas se estendia pelo Pacífico, da América Latina ao Sudeste Asiático. Em 2026, durante o El Niño, essa faixa perdeu intensidade, principalmente nas regiões central e oeste do oceano.

Redução do fitoplâncton ameaça a cadeia alimentar

A diminuição desses organismos pode afetar diferentes níveis da cadeia alimentar marinha. Krill, zooplâncton, moluscos filtradores e outros pequenos animais se alimentam de fitoplâncton e, por sua vez, servem de alimento para espécies maiores. Com menos organismos na base dessa cadeia, a disponibilidade de alimento diminui para outras espécies, provocando impactos que podem se espalhar pelos ecossistemas oceânicos. O aquecimento das águas também afeta a atividade pesqueira. Segundo o artigo, embarcações que operam na costa do Pacífico da América Latina têm retornado com redes parcialmente vazias, enquanto atuns, anchovas e outros peixes comercializados em larga escala se deslocam em direção a águas mais frias. O cenário tem contribuído para a elevação dos preços desses pescados.

Matthew Kehrli, cientista-chefe de pesquisa da equipe do satélite PACE no Centro de Voos Espaciais Goddard, da NASA, afirmou em comunicado que observar os resultados dos dados em tempo real é gratificante para os pesquisadores. Josh Willis, cientista do projeto de missões de nível do mar do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, na Califórnia, também destacou o alcance do fenômeno. Segundo ele, o El Niño afeta quase todas as pessoas de alguma maneira sempre que ocorre. O artigo aponta que as temperaturas do Pacífico tropical estão cerca de 4 °C acima da média. Um dos episódios anteriores de intensidade comparável ocorreu entre 1997 e 1998, quando o El Niño foi associado a 23 mil mortes e a um custo de US$ 5,7 trilhões para a economia global.

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