A visão convencional em Washington é que os democratas se encontram em posição favorável para assumir o controle da Câmara dos Representantes e, possivelmente, até do Senado, nas eleições de 3 de novembro. As condições estruturais favorecem o Partido Democrata. Afinal, o índice de aprovação do republicano Donald Trump encontra-se no mínimo histórico para um presidente em meio de mandato. É um nível comparável ao do ex-presidente George W. Bush em 2006, durante seu segundo mandato. A guerra no Irã ainda não acabou e está se mostrando impopular junto ao eleitorado americano. E o conflito gerou aumento dos preços da gasolina, o que vem decepcionando um eleitorado já preocupado com a alta do custo de vida. Tradicionalmente, as midterms são um referendo sobre o presidente que está no poder. O partido do governo perdeu assentos na Câmara em 18 das últimas 20 eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.
Ainda assim, apesar de todas estas circunstâncias, o Partido Democrata também é impopular em todo o país. A média das pesquisas do portal Real Clear Politics mostra que o público americano considera os democratas apenas um pouco melhores que os republicanos. E pesquisas recentes concluíram que o Partido Democrata ainda detém saldo desfavorável na sua avaliação pelos cidadãos americanos. Analistas políticos afirmam que, se os republicanos conseguirem contrariar as tendências e sobreviver às eleições de novembro com liderança no Congresso, um dos principais motivos será porque a maioria dos eleitores americanos também não aprecia o Partido Democrata (ou a marca dos democratas).
Por trás das manchetes sobre qual partido ou quais candidatos irão vencer na terça-feira, há também uma história sobre a identidade democrata levantada por esta eleição. Existe uma luta entre os institucionalistas e os reformistas — as pessoas que querem mudanças paulatinas e as que exigem transformações profundas. A questão é: quem irá vencer no longo prazo? Parte do motivo desta luta interna entre os democratas é que o partido nunca teve a possibilidade de ter esta disputa durante a corrida presidencial de 2024, com a súbita desistência de Joe Biden, meses antes da eleição, e a nomeação de Kamala Harris como candidata.
De forma simplista, a divisão do partido se dá entre a sua ala centrista, mais moderada, e seu grupo mais à esquerda. Mas operadores e analistas afirmam que existe também uma divisão entre os institucionalistas e aqueles que querem subverter totalmente a instituição existente. Usamah Andrabi, do proeminente grupo de esquerda Democratas pela Justiça, culpa o establishment democrata pela eleição de um Congresso e de um presidente republicanos.
“Por isso, acho que as pessoas que nos trouxeram a este caos simplesmente não serão os que nos tirarão dele”
, segundo Andrabi.
“A crise do custo de vida… é imensa e não será resolvida com ajustes marginais.”
A assistência médica será um dos principais cenários onde esta luta provavelmente será travada, segundo Carrie Dann, editora da newsletter apartidária The Cook Political Report, que prevê a competitividade das campanhas.
“Existe muita disposição, pelo menos, para mais transparência, maior compreensão dos motivos por que os custos da assistência médica são tão altos”
, explica Dann.
“Basta dar um passo em falso, quebrar uma perna e uma imensa parcela dos americanos terão sua vida virada do avesso, devido ao formato atual do sistema de assistência médica.”
Diversos candidatos democratas nesta eleição divulgaram ideias para reduzir os custos diretos para as pessoas que já possuem seguro-saúde.
Mas existe uma outra ala do partido que está cansada de mudanças graduais e quer um sistema nacional de saúde pública com serviços gratuitos: o Medicare para Todos. Pesquisas recentes indicam que a maioria dos democratas é a favor deste tipo de sistema de saúde, que sofre oposição da maior parte dos republicanos. Mas alguns democratas afirmam que existem nuances a serem discutidas.
“As pessoas querem ter assistência médica universal e também poder manter seu seguro-saúde”
, afirma Neera Tanden, ex-consultora de política doméstica de Joe Biden e, agora, CEO (diretora-executiva) do centro de estudos liberal Centro para o Progresso Americano.
O apoio a Israel passou a ser uma questão fundamental dentro do partido. As pessoas que saíram do partido em 2024 por acreditarem que Biden apoiava demais as ações de Israel em Gaza, agora, estão retornando, incentivadas pelo tom firme de Abdul El-Sayed.
“Minha linha vermelha tem sido Gaza”
, afirma a ativista árabe-americana Samraa Luqman, de Michigan.
“2023 e 2024 realmente ensinaram a esta comunidade uma lição de que não queremos mais ficar em cima do muro sobre esta questão. É Gaza ou nada”
, declarou ela. Mas, da mesma forma que estimulou alguns eleitores, El-Sayed também afastou outros, particularmente os que consideram que o apoio a Israel estaria relacionado à segurança dos judeus nos Estados Unidos.
Se El-Sayed vencer, os candidatos da esquerda irão considerá-lo um modelo, segundo Dann. E, se perder, os democratas da ala mais centrista do partido acreditarão que esta é uma prova de que as ideias de esquerda estão fora do alcance dos eleitores comuns. Mas existem outros que acreditam que Michigan não deve ser o foco, como Jim Kessler, do centro de estudos Terceira Via, de tendência centrista. Ele indica que, se os democratas assumirem o controle do Senado, será devido aos candidatos mais de centro: Roy Cooper na Carolina do Norte, Mary Peltola no Alasca, James Talarico no Texas, Josh Turek em Iowa e Adam Hamilton em Kansas.



















