A trégua local na cidade de Oleshky, ocupada pela Rússia no sul da Ucrânia desde 2022, segue em vigor até domingo, (01/11), às 22h59. O objetivo é humanitário. A localidade isolada, situada na margem esquerda do rio Dnipro, na região de Kherson, deverá finalmente receber alimentos e medicamentos. Além disso, os moradores que desejarem poderão deixar o local.
Do lado ucraniano, a operação é coordenada pelo comissário de direitos humanos do Parlamento, Dmytro Lubinez. A Rússia é representada por sua homóloga Jana Lantratova. Lubinez afirmou que Ucrânia e Rússia estão cumprindo integralmente os acordos relacionados ao cessar-fogo local. Na manhã de quinta, he informou que já estava a caminho de Oleshky com a delegação ucraniana para implementar a missão.
“O próximo passo é levar ajuda humanitária às pessoas que permaneceram na cidade e trabalhar para lhes garantir uma saída segura”, destacou na ocasião.
A Ucrânia tem tentado repetidamente chamar a atenção da comunidade internacional para a catástrofe humanitária em Oleshky, ocupada pela Rússia desde 2022.
Antes do início da guerra em larga escala da Rússia contra a Ucrânia, cerca de 24 mil pessoas viviam na cidade. Após a destruição da usina hidrelétrica e da barragem de Kakhovka, em 2023, aproximadamente 90% da área urbana foi inundada. Oleshky está literalmente na linha de frente. Do outro lado do rio Dnipro fica a cidade de Kherson, libertada pelo Exército ucraniano em novembro de 2022.
Nos últimos meses, o fornecimento de alimentos e medicamentos para Oleshky e para as localidades vizinhas tornou-se impossível, e fugir era perigoso demais devido aos constantes ataques de drones e à presença de minas terrestres. A população sofre com a fome. Em toda a região, não há eletricidade nem gás.
Nem Kiev nem Moscou informaram exatamente quando começará a evacuação dos civis. A remoção de minas ao longo das rotas, passo importante para a entrega segura de ajuda humanitária e para a posterior evacuação dos civis, estava concluída nesta sexta-feira. Duas pessoas morreram durente a remoção.
Segundo o representante da administração militar da região de Kherson, Oleksandr Tolokonnikov, a evacuação deverá ocorrer por áreas controladas pela Rússia.
A emissora americana Fox News publicou uma fotografia na qual, supostamente, aparece parte dos planos russo-ucranianos. Segundo o material, os moradores de Oleshky que desejarem ir para territórios controlados por Kiev serão inicialmente levados para Anapa, na Rússia, acompanhados por uma delegação ucraniana liderada por Lubinez. De lá, deverão embarcar em um avião do Ministério da Defesa da Rússia com destino a Belarus. A Ucrânia, porém, não comentou oficialmente a autenticidade essa rota.
Como há sérios problemas de comunicação em Oleshky, informações para a evacuação dos civis estão sendo coletadas com a ajuda de voluntários locais.
“Nós elaboramos listas. Quando não havia números de telefone ou não conseguíamos entrar em contato com alguém, tentávamos obter endereços ou qualquer outra forma de contato para localizar essas pessoas. Elas serão avisadas por telefone, por SMS ou pessoalmente. Todos serão informados”, garante a coordenadora.
O número exato de pessoas que desejam deixar a cidade ainda é uma incógnita, mas 20 ônibus estão à disposição. Uma das coordenadoras da operação pelo lado ucraniano, que prefers permanecer anônima, disse à DW que estima que sejam cerca de mil pessoas. Para a retirada, também é preciso levar em consideração pessoas feridas ou com mobilidade reduzida. Segundo ela, aproximadamente 1,7 mil habitantes ainda permanecem em Oleshky.
A coordenadora também relata que autoridades de ocupação russas também estão distribuindo listas de evacuação paralelamente.
“As pessoas não sabem exatamente onde devem se registrar. Houve um anúncio orientando que fossem até a área próxima ao hospital para fazer a inscrição. Isso se espalhou pela cidade e elas foram até lá acreditando que automaticamente também estariam em nossas listas, mas nós não temos acesso a essas listas. Tudo acontece em um vácuo de informação, baseado em boatos.”
A coordenadora confirma que os acordos preveem condições simplificadas de saída. Animais de estimação, inclusive cães de grande porte, podem ser levados. Além disso, não haverá controle de documentos. Ainda assim, os moradores estão, em sua maioria, pessimistas.
“As pessoas estão com medo porque pensam que serão levadas para a Rússia ou para um campo de filtragem. Quem não tem documentos teme acabar na prisão. Há pânico e desinformação generalizados. O clima é muito ruim”, relata.
Algumas pessoas rejeitam a evacuação por desconfiança, inclusive famílias com crianças.
“Mesmo quando explicamos tudo e pedimos que registrem seus dados para garantir um lugar no ônibus, elas não fazem isso porque não acreditam que isso realmente seja possível”, conta.
O acordo para a trégua local foi alcançado com a mediação da primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump. Segundo os termos do entendimento, os moradores de Oleshky deverão ser levados para áreas controladas pela Ucrânia ou pela Rússia, conforme a preferência de cada um.
Dmytro Lubinez afirmou que Melania Trump dedica “attention e tempo pessoais” à missão humanitária e ao auxílio à população civil de Oleshky.
“Seu envolvimento direto e a coordenação dos esforços de todas as partes envolvidas são um componente importante desse processo”, destacou.
Segundo a Fox News, o acordo entre os comissários de direitos humanos da Ucrânia e da Rússia não trata apenas de uma trégua temporária em Oleshky. Ele também inclui planos para futuras operações humanitárias na parte da região de Kherson ocupada pela Rússia.
Assim, após a conclusão da missão em Oleshky, as partes deverão avaliar a possibilidade de realizar entregas de ajuda humanitária, evacuações e repatriações também em outras cidades ocupadas da região. De acordo com a emissora americana, essas operações poderão ocorrer pelo menos uma vez por mês.



















