Horas após o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais, no dia 4 de outubro, um fã-clube de Billie Eilish fez um post se disponibilizando para ajudar a campanha de Lula (PT). O que parecia um gesto isolado virou um dos movimentos mais inusitados da reta final da eleição. O post no X acabou se tornando a semente de uma mobilização entre fãs de cultura pop. Nas semanas seguintes, os fandoms passaram a priorizar a política em vez de notícias sobre seus ídolos. Criaram conteúdos, foram às ruas e ajudaram a impulsionar uma virada inédita nas eleições presidenciais.
Em agosto, pautas relacionadas a shows pop vinham aproximando fã-clubes de políticos como Guilherme Cortez (PSOL) e Erika Hilton (PSOL), culminando em um encontro com Lula, em Brasília, para o “Decreto dos Fãs”, contra o cambismo e a favor da distribuição gratuita de água nos eventos. Mas o gatilho para o grande movimento veio com o resultado do primeiro turno, em que Lula apareceu atrás de Flávio Bolsonaro (PL). Foi quando os jovens usaram 600 páginas de fã-clubes, totalizando cerca de 20 milhões de seguidores somados, para se unir pela campanha do petista.
“A gente percebia que o Lula tinha uma falta muito forte na campanha dele no digital, de atingir jovens, tanto na edição de vídeo, como em espalhar informações”, explica Victor Gabriel, do Info Billie Brasil. Páginas de fãs de BTS, Olivia Rodrigo, Beyoncé, Taylor Swift, The Weeknd e outros artistas replicaram o post, oferecendo suas redes à campanha. “O tweet foi o estopim, mas, sem a força coletiva, a mobilização provavelmente teria morrido ali”, afirma Rafaella Silveira, do portal Beyoncé Brasil. O esforço logo foi reconhecido pela campanha, com integrantes da equipe de Lula entrando em contato e a equipe de Janja criando um grupo para representantes de fã-clubes.
Esta mobilização contribuiu para um dos primeiros e maiores atos de apoio a Lula, na Avenida Paulista, em 11 de outubro, organizado por associações de estudantes com divulgação dos fandoms. A expectativa inicial era de cerca de 5 mil pessoas, mas Erika Hilton, Geraldo Alckmin e o próprio presidente Lula confirmaram presença, e adms de fã-clubes foram convidados para uma entrevista na DiaTV. O ato ocupou 18 quarteirões da avenida. Ao subir no trio naquele dia, Lula declarou: “Fandoms do Brasil, obrigado pela iniciativa de vocês”.
No período, o coletivo Fandoms Pelo Brasil se estruturou de vez. Nos bastidores, participantes dividiam tarefas desenvolvendo artes, produzindo textos, fazendo contatos e articulando parcerias. A aposta foi em uma linguagem digital que outros jovens entenderiam, usando músicas de ídolos para abordar pautas como o fim da escala 6×1 e associando Lula a divas pop. Rolaram collabs entre fandoms “historicamente rivais”, como fãs de Anitta e Ludmilla, e de BTS e Blackpink. A maior preocupação, segundo Rafaella, era “furar a bolha” e transformar a mobilização digital em votos nas urnas.
Nem todo fã concordou com a ação, e perfis receberam críticas e perderam seguidores que votaram em Flávio. Outros fã-clubes preferiram ficar neutros, como o Shakira Brasil, ou se posicionaram a favor de Flávio Bolsonaro, caso do NJZ Brasil (do grupo NewJeans). No entanto, o movimento pró-Lula seguiu firme até o final, com fãs levando cartazes temáticos e “cabeções” de seus ídolos no último ato, no dia anterior ao segundo turno.
Para o cientista político Jairo Nicolau, a onda veio a partir dos jovens e da articulação digital, trazendo um alento e uma comunicação para um público que a campanha não estava atingindo no primeiro turno. Em seu discurso de vitória, Lula agradeceu a “generosidade da juventude brasileira”. Para os fãs, a experiência mostrou que é possível se organizar em prol de uma nova diva pop: a política. “Ser fã também é ser politizado”, diz Rafaella.



















