Sexta-feira, 30 de outubro de 2026 · São Paulo
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Entenda o termo “suicide by cop” ligado a confrontos provocados

Expressão retrata situações em que uma pessoa provoca de propósito uma reação letal de policiais para tirar a própria vida.

Em resumo

  • A expressão "suicide by cop" define quando alguém provoca uma reação letal policial para se matar.
  • O termo foi cunhado em 1983 por Karl Harris, policial e psicólogo nos Estados Unidos.
  • Estudos apontam a ausência de protocolos específicos para identificar esse fenômeno no Brasil.

Conhecida mundialmente como “suicide by cop” (suicídio por confronto policial), a expressão é usada para retratar situações em que uma pessoa provoca, de forma deliberada e intencional, uma reação letal de policiais como forma de tirar a própria vida. Segundo um artigo publicado na revista Psicologia Jurídica Forense, o comportamento pode envolver atitudes ameaçadoras que colocam a pessoa e terceiros em risco e levam a uma intervenção policial. O estudo aponta que a identificação do fenômeno pode ser dificultada uma vez que, em alguns casos, a pessoa não demonstra inicialmente comportamentos suicidas.

Nos últimos dias, a expressão voltou a ser debatida após a morte de Gustavo Munis de Santana, de 20 anos, durante uma abordagem policial em Moema, na zona Sul de São Paulo. O jovem foi atingido por 27 disparos e morreu no local, na madrugada do dia 10 de outubro. De acordo com a Polícia Militar, o jovem sacou o celular e apontou contra os agentes que, segundo informado, confundiram o item com uma arma de fogo. Uma fonte relatou à CNN Brasil que a possibilidade de “suicide by cop” está entre as questões que podem ser consideradas na análise do caso.

O termo foi cunhado por Karl Harris em 1983, de acordo com um estudo da Associação de Assistência aos Xerifes de Los Angeles, nos Estados Unidos. Policial e psicólogo, Harris identificou um padrão em confrontos nos quais indivíduos pareciam buscar deliberadamente uma reação letal dos agentes.

Entenda o que pode estar associado ao fenômeno

Estudos sobre o “suicide by cop” apontam que situações desse tipo podem estar associadas a diferentes fatores de vulnerabilidade, como histórico de transtornos mentais ou emocionais, abuso de álcool e outras drogas, isolamento social, rupturas afetivas e dificuldades financeiras. Esses elementos, porém, não significam que uma pessoa com esse histórico vá provocar um confronto policial. São fatores que podem aparecer em contextos de crise e precisam ser avaliados individualmente e conforme cada caso.

O artigo da Associação de Assistência aos Xerifes de Los Angeles ainda destaca a sobreposição entre sinais de risco para comportamentos violentos e suicidas. Entre eles estão mudanças bruscas de comportamento, atitudes agressivas, afastamento de pessoas próximas e situações de perda ou desesperança. Em alguns casos, a pessoa pode acionar as forças de segurança para provocar uma intervenção. A avaliação da situação exige cautela, porque comportamentos aparentemente agressivos também podem ter outras motivações, e a intenção suicida não pode ser presumida apenas com base em uma ocorrência.

Ocorrências no Brasil

Um artigo publicado na revista Psicologia Jurídica Forense, elaborado por pesquisadores vinculados à UFMA (Universidade Federal do Maranhão) e a outras instituições acadêmicas, aponta a ausência de reconhecimento formal e de protocolos específicos para identificar esse tipo de ocorrência no Brasil. Segundo o estudo, situações que poderiam envolver a dinâmica do fenômeno podem ser registradas como confrontos ou intervenções policiais, sem que a possível intenção suicida seja identificada. Essa dificuldade limita o levantamento de dados e a compreensão da dimensão do problema.

Fontes ouvidas pela CNN Brasil afirmaram que é difícil identificar esse tipo de ocorrência devido a complexidade dela e porque, normalmente, só é possível saber no momento de atendimento. Explicam ainda que esse tipo de ocorrência ainda traz risco aos policiais e também às pessoas próximas do local. Na última quarta-feira (28), um homem foi atingido na perna por policiais militares em Osasco, na Grande São Paulo. Segundo o relato dos policiais, a vítima teria avançado contra a equipe com uma faca.

A Polícia Militar informou que havia arma de incapacitação neuromuscular disponível durante a ocorrência, mas a “curta distância e a rapidez da agressão impediram seu emprego”. O homem, atingido na perna, recebeu os primeiros socorros dos policiais e foi encaminhado ao Hospital Antônio Giglio, onde foi submetido a cirurgia. De acordo com a corporação, foi instaurado um IPM (Inquérito Policial Militar) para apurar as circunstâncias da ocorrência.

Negociação e prevenção

O artigo publicado na revista Psicologia Jurídica Forense ainda defende uma abordagem que considere a possibilidade de sofrimento psicológico em ocorrências desse tipo. Entre as estratégias discutidas estão a escuta ativa, o diálogo, a negociação e a capacitação dos profissionais de segurança para lidar com situações de crise. A proposta é ampliar as possibilidades de resolução pacífica e reduzir o risco de mortes, sempre considerando as condições concretas de cada ocorrência e a segurança de todas as pessoas envolvidas.

O artigo também destaca a importância do acompanhamento especializado em saúde mental para pessoas que sobrevivem a tentativas de suicídio por confronto policial. A compreensão do fenômeno, segundo os pesquisadores, depende da integração entre áreas como Psicologia, segurança pública e Direito.

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