A chegada do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aos EUA acrescenta um novo elemento à relação entre os governos de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), marcada por divergências políticas e comerciais. A declaração de que o senador receberia visto e autorização para entrada com sua família ocorre dois dias depois de Flávio perder a eleição presidencial e após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar que ele entregasse seus passaportes às autoridades.
O prazo para cumprir a ordem terminou por volta do meio-dia desta terça-feira (27/10), sem que o senador apresentasse os documentos, segundo apuração da BBC News Brasil. Os passaportes foram, então, cancelados. No início da noite, um alto funcionário do Departamento de Estado dos EUA informou ao jornalista Tom Bateman, da BBC, que o órgão concederá visto a Flávio e seus familiares e permitirá a entrada deles no país.
Um auxiliar com acesso a Lula disse à BBC News Brasil, em caráter reservado, que o governo brasileiro não considera que a presença do senador nos Estados Unidos deva, por si só, impedir uma tentativa de normalização das relações com Washington. O relacionamento entre os dois países foi abalado pela imposição de tarifas americanas sobre produtos brasileiros. Segundo o integrante do governo, a se confirmar a chegada do senador aos EUA, o Brasil terá de acompanhar os desdobramentos do caso, incluindo as justificativas apresentadas por Flávio e a eventual necessidade de solicitar sua extradição.
Ele também avalia que o Departamento de Estado americano poderia acolher o senador, mas afirma que uma eventual rejeição a um pedido de extradição não impediria a manutenção de uma relação pragmática entre os dois países. O auxiliar considera ainda que decisão de Flávio representa um problema maior para seus eleitores, o PL e a direita radical brasileira. Ele criticou o que vê como abandono dos apoiadores pela família Bolsonaro e disse ter se surpreendido com a rapidez da possível movimentação.
Contestação do pleito
Flávio não reconheceu o resultado da eleição no domingo (25/10) e, logo depois, afirmou que pediria a anulação do pleito. Na segunda-feira (26/10), publicou um vídeo nas redes sociais em que disse que pediria a cassação da chapa de Lula por supostos “abusos” durante a campanha. O senador citou a prorrogação do horário de votação — determinada pelo ministro do STF Cristiano Zanin após um pedido da campanha de Lula — como uma das razões para contestar o resultado.
Segundo o TSE, foram contabilizados 34.393 votos após as 17h em território nacional. Isso representa 0,026% do total de 128.236.074 votos registrados no segundo turno da eleição, dos quais o presidente Lula recebeu 64.256.232 e Flávio, 59.826.041. No mesmo vídeo, Flávio afirmou que não deixaria o Brasil e que entregaria os passaportes para se defender da decisão de Moraes. “Nunca pensei em sair do país, eu vou entregar os meus passaportes e me defender dessa aberração, é uma clara tentativa de me intimidar”, declarou.
Na manhã desta terça, uma fonte disse à BBC News Brasil que a Polícia Federal havia acionado autoridades argentinas para confirmar se Flávio Bolsonaro havia entrado no território vizinho. A suspeita surgiu após informações sobre um avião da empresa de táxi aéreo Baires Fly que teria chegado a Puerto Iguazú com plano de voo para levar quatro passageiros aos EUA. Autoridades argentinas disseram à BBC que não houve registro de entrada do senador no país por postos de fronteira. A Direção Nacional de Migrações também afirmou não ter registrado sua chegada e disse que não encontrou plano de voo que incluísse a família Bolsonaro.



