Sexta-feira, 23 de outubro de 2026 · São Paulo

Modelo econômico de Milei vira tema da eleição no Brasil

O plano de ajuste do presidente argentino divide opiniões entre candidatos e alimenta debates sobre custos sociais e contas públicas no Brasil.

Em resumo

  • A inflação na Argentina caiu de 211,4% em 2023 para 31,5% em 2025 sob a gestão de Javier Milei.
  • Mais de 32 mil empresas fecharam e o desemprego atingiu 7,9% em meio aos impactos sociais do ajuste.
  • Flávio Bolsonaro defende o modelo de Milei, enquanto Lula e sua campanha criticam os custos sociais.

O presidente da Argentina, Javier Milei, virou assunto ao longo da eleição brasileira. O ultraliberal assumiu o governo do país vizinho em 2023 com a promessa de recuperar a economia por meio do “Plano Motosserra”. O duro programa de ajuste incluía cortes profundos nos gastos públicos, fim de subsídios, desvalorização do peso argentino e desregulamentação. Como mostrou o g1, um dos principais temas econômicos das campanhas presidenciais no Brasil é justamente o equilíbrio das contas públicas.

Nesse debate, Milei se tornou mais um símbolo da polarização: enquanto Flávio Bolsonaro (PL) vê o argentino como exemplo a ser seguido, Lula (PT) alerta para os custos sociais de medidas tão severas na economia.

Esse é o mesmo dilema que Milei enfrenta hoje na Argentina: Por um lado, após quase três anos de governo, as medidas de ajuste econômico reduziram a inflação e melhoraram importantes indicadores da economia, como o equilíbrio das contas públicas do país. Por outro, a paciência de muitos argentinos com o “sacrifício necessário” para arrumar a casa começou a se esgotar à medida que os efeitos das medidas atingiram as empresas, o mercado de trabalho, a renda e o consumo das famílias.

Como está a economia argentina?

Sob a gestão de Milei, a Argentina passou a arrecadar mais do que gasta, equilibrando as contas públicas. A inflação caiu de 211,4% em 2023 para 31,5% em 2025, o menor nível em oito anos. As exportações cresceram, e a Argentina voltou a registrar saldos positivos no comércio exterior. Os investidores se empolgaram. Em 2024, primeiro ano completo de Milei no governo, o S&P Merval, principal índice de ações do país, acumulou alta de quase 115% em dólares e de 174% em pesos argentinos. No ano seguinte, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 4,4%.

A euforia inicial, porém, começou a perder força. A dificuldade para acumular reservas em dólar, a desvalorização do peso e a perda de capital político passaram a pesar sobre o humor do mercado financeiro. Nem a ajuda do presidente americano, Donald Trump, eliminou a percepção de risco. Nas ruas, o freio na economia começou a mudar o humor do argentino. A pobreza, que havia recuado no segundo ano de governo, voltou a subir e voltou a atingir um terço da população, enquanto pesquisas apontam trajetória de alta.

Desde o início da gestão Milei, mais de 32 mil empresas fecharam ou deixaram de ter funcionários registrados, segundo os dados mais recentes. Já o desemprego atingiu 7,9%, maior nível desde 2021. O poder de compra também seguiu pressionado, em meio ao aumento da informalidade. Nas regiões mais pobres, os números ganham rosto: cozinhas comunitárias ficam lotadas, há registros da volta do escambo — troca de produtos sem o uso de dinheiro — e famílias recorrem a empréstimos de curto prazo para colocar comida na mesa.

Gustavo Raúl Pérez, dono de uma loja de ferragens em Buenos Aires, exemplifica o aperto no bolso do consumidor e o impacto para pequenos empreendedores. “Eu costumava vender 10 carrinhos de mão. Agora, vendo um.” “Votei em Milei acreditando que ele traria mudanças para melhor, mas ele realmente me decepcionou”, afirmou Pérez à agência Reuters.

A educação também virou foco de insatisfação. Neste mês, milhares de estudantes e professores têm protestado contra o governo para cobrar mais recursos para as universidades públicas. Em Buenos Aires, uma das manifestações terminou em confronto com a polícia.

Popularidade em queda

Em 2026, os impactos da “motosserra” passaram a pesar também sobre o futuro político de Milei. A popularidade do presidente argentino entrou em queda, com desgaste especialmente entre a parcela mais pobre da população. Pesquisa da AtlasIntel de setembro mostrou que a desaprovação do presidente argentino entre os entrevistados de menor renda, que ganham até cerca de US$ 650 por mês, chegou a quase 70%, enquanto a aprovação ficou abaixo de 30%. Um ano antes, Milei era desaprovado por 57% desse grupo e aprovado por 37%. No conjunto da população, a desaprovação chegou a 58%, ante 38,1% de aprovação. As eleições presidenciais na Argentina estão marcadas para outubro de 2027.

Federico Servideo, diretor-presidente da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira de São Paulo, aponta avanços econômicos no governo Milei. Ele pondera, porém, que a execução do Plano Motosserra passou a enfrentar limitações no ambiente sociopolítico. “A sustentação do equilíbrio fiscal, viabilizada pela contenção de despesas operacionais, transferências a aposentadorias e redução de subsídios às tarifas públicas, exerceu pressão direta sobre a renda disponível das famílias”, afirma.

Como as campanhas exploraram o tema?

Aliado político de Flávio Bolsonaro, o presidente argentino veio ao Brasil para o lançamento da campanha do senador, em 25 de julho. Menos de um mês antes, os dois haviam se encontrado em Buenos Aires. Durante a passagem pela capital argentina, Flávio defendeu a política econômica de Milei e destacou a melhora dos indicadores do país.

“Quando o presidente Milei assumiu o cargo, a Argentina estava falida. Inflação acima de 200% ao ano. Mais da metade da população vivendo na pobreza”, disse. “Então, chegou Javier. E cortou a própria carne do Estado com uma motosserra. Reduziu ministérios pela metade. Acabou com privilégios. Equilibrou as contas. E os resultados estão à vista de todos”, acrescentou Flávio, em espanhol.

Daniella Marques, coordenadora do núcleo econômico da campanha de Flávio à Presidência, também já elogiou o líder do país vizinho. “Milei é um ótimo exemplo em termos de voltar a ter capacidade de investimento e em redução de burocracia e impostos”, afirmou a economista.

A inspiração também surgiu no plano de governo de Flávio, que promete um “tesouraço” no Brasil para “enxugar a máquina, colocar as contas em ordem e reduzir impostos”. O documento, porém, não detalha como os cortes seriam feitos.

Do outro lado da disputa, a campanha de Lula, que busca a reeleição, passou a explorar justamente os efeitos sociais das medidas adotadas na Argentina. Uma das peças compartilhadas nas redes sociais do PT cita a pobreza e a reforma trabalhista promovida por Milei, criticada por sindicatos. Aprovada em fevereiro, a medida permite jornadas de até 12 horas, com possibilidade de compensação, e altera as regras de indenização em caso de demissão.

O vídeo critica também o acordo entre Argentina e Estados Unidos sobre minerais críticos e usa frases como “Flávio Bolsonaro quer transformar o Brasil no modelo de Milei” e “Milei fez lá. Flávio quer fazer aqui”.

Em julho, em resposta a críticas de Javier Milei ao governo Lula, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a economia brasileira estava em situação melhor que a argentina. “O risco-país da Argentina é muito mais alto, a dívida pública é muito mais alta, a inflação é muito mais alta”, declarou Durigan.

A situação do país vizinho também foi explorada durante o primeiro debate presidencial para o segundo turno das eleições no Brasil. Lula questionou Flávio sobre sua proximidade com Milei e perguntou se ele pretendia adotar no Brasil o modelo econômico argentino. Flávio não respondeu à pergunta, mas disse que governos de direita precisam “consertar” problemas deixados por governos de esquerda.

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