A expressão “inteligência artificial” (IA) surgiu em 1955, nos Estados Unidos, a partir do trabalho de pesquisadores que buscavam entender como criar máquinas capazes de demonstrar alguma forma de raciocínio e inteligência semelhante à dos seres humanos. Entre os nomes envolvidos nessa história estão John McCarthy (matemático), Marvin Minsky (matemático e cientista da computação), Claude Shannon (matemático e engenheiro eletrônico) e Nathaniel Rochester (cientista da computação).
Eles trabalhavam em diferentes áreas, como engenharia, matemática e estatística, explicou Cleber Zanchettin, professor de Engenharia da Computação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em IA. “Eles precisavam de uma nomenclatura para pesquisas que misturavam matemática, engenharia e estatística para criar máquinas capazes de exibir raciocínio, algo que não se enquadrava no software tradicional da época”, disse Zanchettin.
No entanto, sete décadas depois, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quer mudar esse nome. A sugestão dele é que a tecnologia passe a ser chamada de “superinteligência” (SI). Segundo Trump, o termo atual faz parecer que a tecnologia “seja falsa”.
Origem e contexto histórico
Embora a expressão tenha surgido em 1955, as pesquisas sobre máquinas capazes de pensar começaram antes disso. Entre as décadas de 1940 e 1950, o matemático e cientista da computação Alan Turing já estudava essa possibilidade. “Seria possível programar uma máquina para responder perguntas de forma que seja extremamente difícil adivinhar se as respostas estão sendo dadas por um homem ou pela máquina”, disse Turing na época. Em 1948, o matemático Norbert Wiener criou o termo “cibernética” para estudar sistemas capazes de usar informações sobre suas próprias ações para ajustar seu funcionamento.
Segundo o pesquisador Allan Pscheidt, foi nesse contexto que John McCarthy criou a expressão “inteligência artificial”, em 1955. A escolha também buscava diferenciar esse campo de pesquisa da cibernética, com foco no raciocínio e na autonomia das máquinas. “Pesquisadores se reuniram no Dartmouth College, nos EUA, para discutir como criar máquinas capazes de pensar. O objetivo era fazer com que os computadores realizassem tarefas que exigem inteligência humana”, explicou o Museu da História do Computador, localizado na Califórnia (EUA). “Eles concordaram em chamar essa área de ‘inteligência artificial’, mas não chegaram a um consenso sobre como desenvolver a tecnologia na prática”, completou.
Por que Trump quer mudar o nome?
Inteligência artificial é o atual hiperfoco de Donald Trump. O presidente norte-americano tem insistido que quer substituir o nome da tecnologia por “superinteligência”. Em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, em setembro, Trump afirmou que “o nome inteligência artificial faz soar como se ela fosse falsa”. Disse ainda que “de agora em diante, todos os documentos dos EUA e, espero, de todo o mundo, vão utilizar o nome Superinteligência”.
Antes de decidir por esse nome, Trump chegou a abrir uma enquete em sua rede social, a Truth Social, com as opções “Inteligência Superior (IS)”, “Inteligência Extrema (IE)” e “Inteligência Suprema (IS)”. Dois dias depois, fez uma nova enquete, desta vez com “Superinteligência” e “Inteligência Superior”. Em nenhuma das postagens, explicou como a alteração seria feita ou se o mercado de tecnologia concordava com a mudança. Trump também causou polêmica ao afirmar que passaria a tratar como “inimigo” quem usasse o termo “inteligência artificial” em vez de “superinteligência”.
A visão dos especialistas
Para Anderson Soares, fundador e professor do Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA), da Universidade Federal de Goiás (UFG), o próprio conceito de inteligência ainda não tem uma definição precisa. “O que chamamos hoje de inteligência artificial está relacionado à capacidade das máquinas de realizar tarefas que associamos à inteligência humana”, afirma. Para ele, a tentativa de Trump parece ter mais relação com interesses políticos do que com o desenvolvimento da tecnologia.
“O objetivo de mudar o nome me parece muito mais um contragolpe na questão de paralisar o desenvolvimento da IA. Parece mais um ato político do que efetivamente algo construtivo e que contribua para o que está acontecendo em termos de desenvolvimento”, disse Soares. Cleber Zanchettin, da UFPE, também questiona a proposta e afirma que a fala de Trump revela uma “jogada de marketing para chamar atenção, sem efeito prático”.
Já para Allan Pscheidt, a proposta é uma demonstração de poder e soberania dos Estados Unidos no cenário internacional de IA. “Quando Trump vem com a ideia de cunhar o termo ‘superinteligência’, ele está avisando ao mundo que os EUA vão atingir a AGI muito em breve e que, com isso, vão mostrar sua soberania tecnológica”, completou. A AGI (Inteligência Artificial Geral) é o termo usado para descrever uma IA capaz de realizar uma ampla variedade de tarefas intelectuais em nível semelhante ou superior ao dos humanos.
Medo da tecnologia
Além das dificuldades para mudar um nome já consolidado, especialistas alertam que a proposta de Trump pode aumentar a rejeição das pessoas à inteligência artificial. Cleber Zanchettin explica que grande parte da população ainda tem pouco conhecimento sobre a tecnologia. “Introduzir um termo como ‘superinteligência’ ou ‘inteligência suprema’ pode soar como uma ameaça aos humanos e aumentar a rejeição do público”, disse.
Uma pesquisa recente do Pew Research Center mostrou que mais da metade dos brasileiros (52%) está mais preocupada do que animada com o avanço da inteligência artificial. Nos Estados Unidos, a percepção é semelhante: cerca de nove em cada dez americanos dizem estar mais preocupados do que animados com a possibilidade de a IA um dia superar a inteligência humana, segundo uma pesquisa da CNN norte-americana divulgada em setembro.



