Em Piracicaba (SP), a professora de ioga e terapeuta integral Silvia Onofre atua como doula da morte, oferecendo suporte a pessoas e famílias diante da finitude, do processo de morrer e do luto. A profissional, que se capacitou na função após perder o pai e o cunhado em 2017, realiza retiros de finitude, grupos de apoio e funerais simbólicos, visando transformar a forma como a sociedade encara o fim da vida.
O trabalho da doula da morte consiste em oferecer presença, escuta e apoio emocional. Silvia ressalta que a prática não substitui o atendimento clínico de médicos, enfermeiros ou especialistas em cuidados paliativos, funcionando apenas como um complemento. No Brasil, a profissão ainda não é regulamentada, diferentemente da doulagem voltada ao parto, prevista na Lei Federal nº 15.381/2026.
“A morte faz parte da vida. E falar sobre ela não precisa ser um assunto sombrio”, afirma Silvia. Antes de atuar na área, a terapeuta trabalhou por mais de dez anos no setor corporativo. Após concluir sua formação em 2025, passou a estruturar sua carreira focada na educação para a vida e para a morte, conduzindo atividades como o ‘Retiro Finitude’, que aborda tanto mortes físicas quanto simbólicas, como términos de relacionamentos ou aposentadoria.
Diante da finitude física, a doula auxilia no planejamento de questões práticas, como a organização de velórios e a preparação de diretrizes antecipadas de vontade. “A doula da morte é aquela que facilita o espaço para o morrer. Assim, como temos a doula de nascimento, que prepara todo o espaço para o ser vir ao mundo, a doula da morte facilita essa despedida do corpo físico”, explica.
O atendimento também inclui técnicas corporais, como massagens e aromaterapia, para aliviar dores físicas decorrentes do luto. A professora Rafaela Pereira Santos, de 38 anos, relata que a doula a ajudou a ressignificar a perda de seu primeiro filho, Lourenço, ocorrida 11 anos antes, por meio de um velório simbólico. Já o barbeiro Kelvin Jones, de 26 anos, buscou o suporte após a morte de sua mãe, Íris, para enfrentar a ausência e organizar sua rotina.
Especialistas da área médica reconhecem o valor do suporte emocional. O psiquiatra Arthur Cardoso destaca que o acompanhamento profissional ajuda a preservar a história do paciente e evita complicações emocionais nos familiares. Por outro lado, o médico de Família e Comunidade Lucas Fernando Zorzetto pontua que as equipes de cuidados paliativos já são multiprofissionais e interdisciplinares, oferecendo suporte integral conforme diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS).



















