A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não só freou a guinada à direita na América Latina, mas se tornou também um ponto de inflexão para os Estados Unidos em sua doutrina na região. A vitória de Lula obrigará agora a Casa Branca a recalcular a rota e possivelmente aumentar a influência em outros países latino-americanos, na avaliação de especialistas.
O Brasil foi o primeiro país da América Latina a não eleger a direita em eleições presidenciais desde que Donald Trump voltou à presidência dos EUA, em janeiro de 2025. Pressionada pelos EUA, a região, que costuma caminhar junto em alternâncias de poder, reconfigurou seu mapa político nos dois últimos anos, caminhando para a direita. Países como Colômbia, Peru, Costa Rica e Chile se uniram a El Salvador e Argentina.
Desde que voltou à Casa Branca, o presidente dos EUA, Donald Trump, tem buscado ampliar a influência de Washington na América Latina e reivindicou o retorno da Doutrina Monroe — a estratégia de política externa criada há 200 anos por Washington para exercer poder sobre a região. O objetivo, agora, é proteger o continente da China, seu maior rival geopolítico.
Desde o início de 2025, o governo Trump declarou apoio a nomes da direita e da extrema direita em eleições na Colômbia, no Peru, em Honduras, na Costa Rica e na Argentina (neste caso, um pleito legislativo); lançou uma operação militar naval e aérea no Mar do Caribe; invadiu a Venezuela, capturando o então presidente Nicolás Maduro; expandiu o número de facções e cartéis da América Latina na lista do Pentágono de grupos classificados como terroristas, incluindo os brasileiros PCC e CV; lançou o “Escudo das Américas”, uma coalizão de países aliados que, para o governo brasileiro, visa impor cerco ao Brasil; enviou tropas à Colômbia, ao Panamá e a Honduras para ajudar no combate ao narcotráfico, fez operações militares conjuntas no Equador e anunciou que faria o mesmo na Guatemala; transferiu recursos militares da Europa e do Oriente Médio para a América Latina; e deslocou drones MQ-9 Reaper, os chamados “caçadores-assassinos”, da África para o Equador e a Colômbia.
O Brasil, rico em minerais e em terras raras, seria o maior prêmio para os EUA e culminaria o sucesso dessa estratégia, disse o analista sênior de América Latina do Chatham House, Christopher Sabatini. Sem a cereja no bolo, agora a Casa Branca tentará driblar o Brasil para seguir ampliando sua Doutrina Monroe na região, na avaliação do analista político norte-americano Samuel Logan, fundador da consultoria de inteligência de dados da Evidencity, focada em América Latina.
“Para Washington, a vitória de Lula representa um contratempo, mas não um obstáculo à estratégia regional”, disse Logan ao g1. Logan disse achar que o governo Trump, em vez de recuar em sua ofensiva por influência na América Latina, vai concentrar esforços nos países já aliados — Argentina, Chile, Paraguai, Peru, Bolívia, Equador, Colômbia, El Salvador, Panamá, Honduras e Costa Rica. “Na verdade, a agenda de Trump para a América Latina tende a se acelerar”, afirmou Logan.
Esta aceleração da Doutrina Monroe entre os aliados deve se dar, principalmente, através de mais operações militares conjuntas, segundo os analistas. “O que está acontecendo é uma tentativa de legitimar o aumento do uso das Forças Armadas dos EUA na região”, disse à agências de notícias Associated Press Michael Shifter, especialista em América Latina do think tank Diálogo Interamericano.
Já no Brasil, a resistência de Lula em ceder a exigências do governo Trump, na avaliação do analista, ajudou em sua reeleição e deve seguir sendo uma tônica de seu quarto mandato. Ciente disso, Washington negociará com o governo brasileiro para tentar conquistar seus objetivos no Brasil, como a exploração de minerais e terras raras. Mas encontrará, no caminho, o poder de influência do próprio Brasil com os vizinhos sul-americanos.
“O Brasil faz fronteira com 10 nações. Nessas 10, o Brasil possui grande influência; mesmo quando as posições políticas não coincidem, as relações entre as forças armadas permanecem sólidas — muitas vezes, inclusive, mais estreitas do que os laços que esses países mantêm com Washington”, afirmou Logan.
Ao longo de toda a campanha eleitoral brasileira, Donald Trump se absteve de declarar apoio a Flávio Bolsonaro. Depois do resultado, Trump disse que se dá bem com Lula, mas também questionou as eleições — sem apresentar provas — e permitiu a entrada do candidato derrotado Flávio Bolsonaro nos EUA. O senador e sua família deixaram o Brasil na quarta-feira (28) em uma operação secreta que envolveu uma entrada por terra na Argentina e uma viagem em jatinho privado até Miami, na Flórida. Trump diz que não tomou partido nas eleições no Brasil a pedido de Lula.



















