A preocupação com os rumos do país e com os riscos para as instituições democráticas e para a educação, às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, impulsionou a retomada das ruas pelo movimento estudantil. Milhares de estudantes têm promovido atos em diversas cidades brasileiras para defender a democracia e a educação pública, posicionando-se sobre os candidatos e suas propostas. Em entrevista, a presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Bianca Borges, destacou o protagonismo de universitários e secundaristas e relembrou a trajetória histórica do movimento no país.
Durante a mobilização, a atuação das entidades gerou desdobramentos judiciais. Na última sexta-feira, o ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), negou um pedido da campanha do candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL) para barrar publicações nas redes sociais de 54 dirigentes de sindicatos, movimentos sociais e entidades estudantis, entre as quais está a UNE.
Ao avaliar o cenário eleitoral, a dirigente apontou riscos para as instituições.
“Neste momento, nós vemos não só uma eleição em jogo, mas verdadeiramente o futuro do nosso país em risco”
, disse Bianca Borges, citando a possibilidade da ascensão de um governo autoritário, contrário à educação e representativo de retrocesso. Ela também indicou os desafios concretos enfrentados pelas universidades públicas, como o subfinanciamento, a necessidade de ampliar a assistência estudantil e a garantia de condições para a permanência de alunos de baixa renda nos cursos.
Estudante de letras do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), Bianca Borges tem 25 anos, é paulista nascida em Itapevi e criada em Praia Grande, e assumiu a presidência da UNE para o mandato de 2025–2027. Sua trajetória no movimento estudantil começou aos 14 anos na Escola Técnica Estadual (Etec) de Praia Grande, onde foi representante de sala e cofundou um grêmio. Formada em direito pela Universidade de São Paulo (USP), onde ingressou em 2017, foi coordenadora-geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE) Livre da USP e diretora-geral do Centro Acadêmico XI de Agosto. Ela presidiu a União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE-SP), liderando a resistência a propostas de privatização e militarização do ensino público estadual do governador Tarcísio de Freitas, além de ter integrado a Organização Latino-Americana e Caribenha de Estudantes (Oclae).
Motivação dos protestos e histórico
Questionada sobre a decisão das organizações de voltar às ruas, a presidente da UNE afirmou:
“Neste momento, nós vemos não só uma eleição em jogo, mas verdadeiramente o futuro do nosso país em risco. A eleição do Flávio Bolsonaro representa a possibilidade da ascensão de um governo autoritário, que é contra a educação, um governo de retirada de direitos e de retrocesso. Os estudantes se levantam pelos direitos, pela educação, pela soberania e pela democracia brasileira diante dessa ameaça. Isso é da própria vocação dos estudantes brasileiros, desde a fundação da UNE tem sido assim.”
Ela relembrou marcos históricos de lutas estudantis no país, como a campanha O Petróleo É Nosso, o enfrentamento à ditadura militar, as Diretas Já, o Fora Collor, o Fora Temer e o Fora Bolsonaro. Bianca acrescentou:
“E agora a gente está na rua porque a eleição do presidente Lula representa, neste momento, algo indispensável para o futuro do Brasil como o país que a gente quer construir. O bolsonarismo não é um inimigo abstrato, é um inimigo muito concreto. A gente viveu quatro anos de enfrentamento sob esse governo e a gente não aceita que eles voltem ao poder.”
Comparação histórica e participação nos atos
Sobre a relação entre as manifestações atuais e a Passeata dos 100 mil, ocorrida em 1968 durante a ditadura militar, Bianca respondeu:
“Com certeza. Nós, inclusive, tivemos um ato no centro do Rio de Janeiro, no dia 7 [de outubro de 2026], que foi muito bonito, da Candelária à Cinelândia. Alguns dos presentes, que fizeram parte de outras gerações do movimento estudantil e da política, disseram que havia ali tanta gente quanto na Passeata dos 100 mil. Nas nossas falas ali, reverenciamos esse momento, reverenciamos Edson Luís – um dos nossos mártires e símbolo da luta dos estudantes brasileiros contra o autoritarismo, pelos direitos, pela educação. É um momento em que a nossa indignação se converte nesses protestos que têm tomado o país.”
A respeito dos participantes dos protestos, a presidente da UNE explicou que a mobilização começou nas universidades, citando a Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, onde uma assembleia marcada para a segunda-feira após o primeiro turno reuniu mais de mil estudantes e se transformou em uma passeata com milhares de pessoas. Ela pontuou que a maioria dos mobilizados é formada por universitários organizados por centros acadêmicos e DCEs, mas ressaltou a adesão de secundaristas, como os estudantes do Colégio Pedro II no ato do Rio de Janeiro, e de outros setores da sociedade, citando a manifestação realizada na terça-feira, 13 de outubro de 2026, em Brasília.
Pautas, propostas e críticas
Entre as pautas centrais, Bianca citou a oposição a medidas adotadas no governo de Jair Bolsonaro a partir de 2019, como o projeto Future-se, declarações que chamavam centros acadêmicos de “ninho de rato” e a nomeação de mais de 18 reitores interventores que não ficaram em primeiro lugar nas eleições acadêmicas. Sobre as propostas de Flávio Bolsonaro, a dirigente manifestou preocupação com o “tesouraço” nos direitos sociais e na educação, o subfinanciamento das universidades e a proposta de transferir a gestão das universidades federais do Ministério da Educação (MEC) para o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTI).
De acordo com Bianca Borges, essa mudança de gestão faria com que a universidade trabalhasse exclusivamente voltada aos interesses do mercado. Ao conceituar o autoritarismo e o fascismo no cenário atual, a presidente da UNE citou a deslegitimação da organização popular, o incentivo à violência política e ameaças de incêndios criminosos a universidades pelas redes sociais, recordando o incêndio na sede da UNE na Praia do Flamengo em 1º de abril de 1964 e registrando dois incêndios em apuração na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Por fim, Bianca explicou o apoio a Luiz Inácio Lula da Silva, afirmando que o projeto de Flávio Bolsonaro
“além de fascista, é um projeto completamente entreguista”
, por ter anunciado intenções de colocar a transição a serviço dos Estados Unidos e entregar terras raras a mineradoras norte-americanas. Entre as reivindicações que permanecem para o setor, a presidente da UNE defendeu a consolidação do Plano Nacional de Assistência Estudantil com orçamento robusto, mais investimentos nas universidades públicas e o apoio a uma proposta de emenda constitucional na Câmara para garantir repasses do governo federal às universidades estaduais.



