A saída do senador Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil, ocorrida na terça-feira (27), dois dias após perder o segundo turno das eleições para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), deu início a uma disputa interna pela liderança da oposição e da direita no país. O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), é apontado por aliados da família Bolsonaro e por integrantes do Centrão como o nome mais bem posicionado para assumir esse espaço.
Apesar desse movimento em torno de Tarcísio, aliados ponderam que, mesmo que o governador paulista se consolide como a principal liderança oposicionista, o protagonismo cotidiano será compartilhado com deputados e senadores. Na avaliação desse grupo, é no Congresso Nacional que a oposição terá os instrumentos mais imediatos para enfrentar o governo Lula, seja na votação de projetos, na instalação de CPIs ou na pressão sobre a pauta econômica. Com isso, Tarcísio atuaria de forma mais voltada ao debate nacional e à articulação política, enquanto as bancadas de direita na Câmara e no Senado ficariam responsáveis pelo embate direto com o Palácio do Planalto.
Flávio deixou o país em direção aos Estados Unidos acompanhado da esposa e de duas filhas na terça-feira (27). Segundo fontes, o ex-presidente americano Donald Trump autorizou a entrada do parlamentar em território norte-americano. O senador é investigado em três inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF).
No mesmo dia da partida de Flávio, Tarcísio publicou um vídeo em que reconheceu a vitória de Lula, mas fez cobranças ao novo governo. “Reconhecer o resultado não significa calar sobre os excessos. O uso da máquina, programas lançados fora do prazo, a interferência do Judiciário. Tudo isso marcou esta eleição e precisa deixar lições”, afirmou o governador. Ele também disse que o país segue “fraturado e dividido” e declarou que as promessas de campanha “precisam ser examinadas com rigor, porque a conta sempre chega para o contribuinte”. No pronunciamento, Tarcísio agradeceu a Flávio pela “caminhada” na campanha, sem comentar expressamente a saída do senador do país.
Quem pode liderar a oposição no Brasil?
Segundo apuração da analista de política Jussara Soares, aliados do clã Bolsonaro e interlocutores de Tarcísio avaliam que a saída de Flávio fortalece o governador como a principal voz oposicionista a Lula. Com o ex-presidente Jair Bolsonaro em prisão domiciliar e os filhos Flávio e Eduardo fora do Brasil, esses interlocutores veem Tarcísio como mais articulado do que os integrantes da família mantidos no país. Carlos Bolsonaro, eleito senador por Santa Catarina, é descrito por aliados como alguém que não gosta da articulação política e atua nos bastidores. Por sua vez, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, eleita senadora pelo Distrito Federal, conta com o respaldo do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, mas enfrenta resistências dos filhos do ex-presidente e de setores do bolsonarismo.
Pesa a favor de Tarcísio o fato de ter sido reeleito em primeiro turno no maior estado do país e de ter atuado como um dos principais conselheiros de Flávio no segundo turno. O governador esteve entre os aliados que orientaram o senador a não contestar o resultado das urnas e a não deixar o país. Entre os governadores de direita eleitos neste ano, como Sergio Moro (PL), no Paraná, e Douglas Ruas (PL), no Rio de Janeiro, a avaliação é que nenhum tem a mesma estatura para liderar a oposição nacionalmente.
Quais são os planos de Tarcísio de Freitas para 2030?
Conforme o analista de política Caio Junqueira, Tarcísio indicou a interlocutores, ainda na noite de domingo (25), que pretende trabalhar para liderar a oposição visando à disputa presidencial de 2030. O governador lembrou que estará livre para concorrer ao fim de seu segundo mandato em São Paulo, ponderando que outros nomes da direita devem surgir até lá e que sua candidatura dependerá dos resultados à frente do governo paulista.
Na avaliação de Tarcísio, a oposição sempre foi desorganizada e individualista, precisando agora atuar como um time, com uma agenda centrada em economia, custo de vida e segurança pública — temas explorados na campanha de Flávio. O governador tem dito a aliados que o novo mandato de Lula começa com uma crise fiscal contratada e que, se o presidente cumprir todas as promessas de campanha, as contas públicas não fecham, ao passo que, se não cumprir, será acusado de estelionato eleitoral. Tarcísio pretende se posicionar como porta-voz dos setores produtivos paulistas nos debates econômicos do país. Ele não tem planos de trocar o Republicanos pelo PL, partido que apoiou Flávio desde o primeiro turno e possui uma ala próxima ao governo Lula.
Como fica o futuro da direita não bolsonarista?
A derrota de Flávio reacendeu o debate sobre o futuro do bolsonarismo. Partidos do Centrão e alas moderadas da direita, inclusive no próprio PL, defendem ser o momento de se descolar do sobrenome Bolsonaro. Para o analista de política Pedro Venceslau, a saída do senador abriu uma janela para a direita não bolsonarista. Além de Tarcísio, a quem o Centrão quer projetar nacionalmente, o dirigente do Missão, Renan Santos, já admitiu que pode disputar novamente a Presidência em 2030. Aliados consideram que o sentimento antibolsonarista pesou nas duas últimas eleições presidenciais, em que um membro da família Bolsonaro foi derrotado por Lula.
A reportagem contou com informações coletadas por Pedro Venceslau, Jussara Soares, Caio Junqueira e Teo Cury.



