Sexta-feira, 6 de novembro de 2026 · São Paulo
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Coreia do Sul conclui transporte de carga por rota no Ártico

Navio sul-coreano testou rota comercial pelo Ártico com apoio da Rússia, encurtando viagens e gerando debates geopolíticos.

Em resumo

  • Navio sul-coreano completou viagem entre Busan e Roterdã pela costa ártica da Rússia em 50 dias.
  • A nova rota reduz o tempo de transporte em dez dias em comparação com o Canal de Suez.
  • Governo sul-coreano planeja estabelecer serviços comerciais regulares na NSR até 2030.

A Coreia do Sul concluiu em outubro uma viagem que, segundo suas expectativas, pode representar a abertura de um nova via marítima comercial pelo Oceano Ártico.

Um navio porta-contêiners sul-coreano saiu de Busan e chegou a Roterdã, na Holanda, em 50 dias, pela costa ártica da Rússia. Economizou pelo menos dez dias em comparação com os tempos mais rápidos da rota mais utilizada, pelo Canal de Suez.

A Rota do Mar do Norte (NSR, na sigla em inglês) não é apenas cerca de 7 mil quilômetros mais curta, como também evita o foco de tensão geopolítica das vias mais usadas atualmente, que passam pelo Oriente Médio.

A redução dos tempos de entrega, contudo, é vista com ressalvas entre as potências europeias. Analistas afirmam que os países alinhados contra a Rússia por causa da invasão da Ucrânia temem que o presidente sul-coreano, Lee Jae-myung, esteja buscando ampliar as relações econômicas de Seul com Moscou. Isso iria na contra-mão dos esforços de Kiev e de seus aliados ocidentais para isolar a Rússia.

Uma das razões para a Coreia do Sul testar a rota ártica é, sem dúvida, seu grande potencial econômico. Mas analistas disseram à DW que Seul também espera que, ao manter uma relação funcional com o regime russo, possa influenciar Vladimir Putin a não fornecer mais armas à Coreia do Norte.

Para eles, é preciso que Seul navegue com extrema cautela por essas águas geopolíticas.

O navio porta-contêineres PanStar Acro deixou o porto sul-coreano de Busan em 22 de agosto e contornou a Rússia até chegar ao porto de Felixstowe, no sul da Inglaterra. Depois, seguiu para Roterdã, na Holanda, e Gdansk, na Polônia, antes de retornar pela Rota do Mar do Norte.

Durante décadas, a NSR foi intransitável devido à cobertura de gelo no Polo Norte. Com o recuo do gelo provocado pelas mudanças climáticas, a navegação vem se tornando possível, embora navios comerciais frequentemente precisem ser acompanhados por quebra-gelos em determinadas épocas do ano.

Segundo o Conselho do Ártico, organismo internacional que reúne Estados Unidos, Rússia, Canadá, Noruega, Suécia, Finlândia, Dinamarca e Islândia, o ano passado registrou um recorde de 1.812 embarcações operando no Ártico. Isso representa um aumento de 40% em comparação com 2013.

A NSR “apresenta um potencial econômico significativo” para a Coreia do Sul ao aproximá-la dos principais mercados europeus, contornando ao mesmo tempo as desafiadoras águas do noroeste do Oceano Índico, afirmou Joseph Kristanto, analista de segurança marítima da Escola de Estudos Internacionais S. Rajaratnam, em Singapura.

“Além de potencialmente reduzir custos de transporte e tempos de trânsito, o desenvolvimento da rota pode fortalecer a posição de Busan como polo marítimo regional e criar oportunidades para o setor sul-coreano de construção naval.”

O governo Lee traçou planos para estabelecer serviços comerciais regulares na NSR até 2030, sendo a viagem do primeiro navio sul-coreano a completar o percurso apenas um teste da logística.

O risco, porém, é que, ao desenvolver a NSR como sua rota preferencial para a Europa, “a Coreia do Sul possa criar uma nova forma de dependência estratégica da Rússia, já que Moscou exerce controle considerável sobre a navegação ao longo de sua costa ártica”, disse Kristanto.

“Do ponto de vista europeu, um engajamento econômico mais próximo com a Rússia ameaça enfraquecer os esforços para isolar Moscou por causa da invasão da Ucrânia.”

Kristanto observou que Moscou poderia exercer pressão por meio de regulamentações e da “prestação de assistência com quebra-gelos”.

O analista também afirmou que as preocupações de diplomatas europeus com a recente aproximação entre Seul e Moscou vão além da NSR e incluem a suposta entrega de cerca de 165 mil toneladas de combustível à Rússia em agosto, transportadas por petroleiros russos sancionados.

Tudo isso acontece enquanto Pyongyang, principal rival de Seul, envia tropas para ajudar a Rússia em sua guerra contra a Ucrânia.

“A Coreia do Sul tem grande interesse em acessar a NSR porque as mudanças climáticas fizeram com que uma rota antes impossível de usar agora esteja acessível e faça perfeito sentido do ponto de vista econômico”, disse Andrei Lankov, professor de história e relações internacionais da Universidade Kookmin, em Seul.

Ao mesmo tempo, Seul está “tentando enviar sinais ao governo russo de que está disposta a administrar a relação” entre os dois países, acrescentou.

Essa postura coincide com uma atitude mais dura de Seul em relação à Ucrânia, que remonta a setembro, quando o presidente Volodimir Zelenski discursou na Assembleia Geral da ONU e confirmou que dois norte-coreanos capturados na Ucrânia haviam sido transferidos para a Coreia do Sul. Seul reagiu com irritação e alegou que Zelenski havia violado um acordo que mantinha em sigilo a transferência dos dois prisioneiros de guerra.

A disputa evoluiu para uma séria crise diplomática, com Seul exigindo pedidos de desculpas e, por fim, retirando vários de seus diplomatas de Kiev.

Lankov acredita que la crise pode ter sido, em alguma medida, encenada por Seul, pois permitiu ao governo Lee se distanciar de Kiev e resistir à pressão para fornecer ajuda material à Ucrânia. Segundo ele, essa posição foi bem recebida em Moscou.

“E então a Rússia poderia retribuir deixando de fornecer à Coreia do Norte tecnologia militar avançada e perigosa”, acrescentou Lankov.

“No momento, a Coreia do Sul quer agir com discrição, examinar as possibilidades e estar preparada para quando a guerra na Ucrânia terminar e as sanções contra a Rússia forem suspensas no futuro”, disse Lankov. “Esse é o plano econômico, mas eles também esperam que, ao trabalhar com Moscou, consigam interromper a transferência de mais armas para o Norte.”

Kristanto também espera que Seul adote “uma abordagem cautelosa e gradual”.

“É improvável que Seul abandone completamente a iniciativa, especialmente diante do crescente interesse chinês pela navegação no Ártico, mas também procurará evitar antagonizar desnecessariamente seus parceiros ocidentais”, afirmou.

“Em última análise, a Coreia do Sul não está necessariamente escolhendo entre a Rússia e o Ocidente, mas tentando preservar uma oportunidade econômica potencialmente valiosa sem comprometer suas relações estratégicas mais fundamentais.”

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