A estudante Costanza Peña, filha do presidente do Paraguai, Santiago Peña (Partido Colorado, direita), foi alvo de críticas nas redes sociais, nesta 6ª feira (6.nov.2026). Internautas compartilharam uma imagem em que ela aparece posando para o espelho de uma academia, vestindo uma camiseta com a frase “Tax the poor” (“Taxem os pobres”). O perfil que fez a postagem da foto foi criado em abril de 2019 e é privado. Já a página do perfil oficial de Costanza está indisponível.
Nas redes sociais, usuários disseram que Costanza usava uma camiseta com uma mensagem de “forte insensibilidade social”, enquanto o Paraguai enfrenta a maior crise bancária de sua história. Na 5ª feira (5.nov), o presidente paraguaio anunciou nas redes sociais sua renúncia ao cargo depois do colapso do Ueno Bank, o maior banco digital do país. Peña é alvo de um processo de impeachment que será analisado pelo Senado.
Internautas também estão comentando em publicações no perfil oficial no Instagram da Universidade Columbia, que fica em Nova York (EUA), onde Costanza estuda. “Costanza fora”, dizem os usuários, pedindo a expulsão dela da instituição, em um post sobre “folhas de outono no campus de Morningside”. Já uma página no Instagram, administrada por estudantes da Universidade Columbia, tem publicado depoimentos anônimos contra Costanza.
“Como alguém que vem de uma família muito privilegiada, acho genuinamente constrangedor ver essa garota da turma de ’28 usar e postar uma foto com uma camiseta escrito ‘taxem os pobres’, especialmente quando o pai dela está sendo investigado por roubar milhões de cidadãos que agora perderam tudo”, diz uma publicação. “Existe uma razão para dizerem que dinheiro não compra classe, e essa garota é exatamente o que isso significa. Simplesmente repugnante”, acrescenta o relato anônimo. Outra publicação afirma: “Como alguém cujos pais perderam todas as suas poupanças por causa desta situação no Paraguai, quero agradecer a esta página por dar visibilidade a este assunto”.
Entenda a crise no Ueno Bank
O Ueno Bank tinha cerca de 3 milhões de clientes, o equivalente a metade da população paraguaia, estimada em cerca de 7 milhões de habitantes. Com o colapso, milhões de pessoas ficaram sem acesso aos recursos depositados na instituição. Na 2ª feira (2.nov), o Banco Central do Paraguai decidiu, por unanimidade, iniciar o procedimento de resolução do banco. A medida foi tomada depois que o órgão constatou que o índice de solvência da instituição havia caído para menos de 50% do mínimo exigido pela legislação.
Diante da pressão, Peña pediu a renúncia do presidente do BC, Carlos Carvallo, que deixou o cargo na 3ª feira (3.nov). No dia seguinte, Peña anunciou a indicação do economista Raúl Vera Bogado para comandar o órgão e encaminhou ao Congresso o pedido de acordo constitucional para a nomeação. O BC informou que a decisão resultou de meses de fiscalização. Em junho, a Superintendência de Bancos identificou créditos vinculados a empresas do grupo controlador da instituição e solicitou adequação das operações aos limites legais. Os achados contribuíram para a deterioração dos indicadores de liquidez e para a necessidade de constituir provisões adicionais.
Com a abertura do procedimento de resolução, as operações do banco foram suspensas e os depósitos ficaram temporariamente indisponíveis enquanto as autoridades definem os mecanismos de recuperação dos recursos. Com isso, clientes e aposentados com recursos no Ueno Bank protestaram para exigir a devolução integral dos valores depositados. O ato começou de forma pacífica, mas evoluiu para confrontos quando um grupo tentou avançar em direção à sede do Congresso e foi contido pela Polícia Nacional. Houve choques com as forças de segurança em Assunção, capital do país.
Relação de Peña com o Ueno
O Ueno ganhou espaço no mercado paraguaio após sua transformação de financeira em banco, em 2023. A oposição ao governo Peña, por sua vez, questiona empréstimos concedidos a empresas ligadas ao Grupo Vázquez –afirmando que os montantes ultrapassaram os limites regulatórios. Congressistas de oposição falam em possível conflito de interesses e dizem que o governo manipulou regras e contou com o “acobertamento” do Banco Central do Paraguai, presidido por Carlos Carvallo. Ele foi presidente do Ueno até agosto de 2023, quando Peña o indicou para presidir o BC paraguaio.
A oposição também diz que Peña promoveu mudanças na lei de conflitos de interesses e permitiu a concentração de centenas de bilhões de guaranis do Instituto de Previsão Social no Ueno Bank, acima dos limites estabelecidos pela legislação vigente. De acordo com o jornal ABC Color, o documento assinado por deputados de oposição afirma que o presidente paraguaio deve ser investigado pelos seguintes pontos:
- conflito de interesses e cooptação do Estado;
- manipulação regulatória e desvio de fundos de aposentadoria do IPS;
- exceder os limites de crédito no UENO Bank e encobrimento institucional do Banco Central;
- benefício patrimonial indevido e indícios de enriquecimento ilícito;
- afeção da confiança no sistema financeiro nacional e exposição a um risco sistêmico.
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