Terça-feira, 3 de novembro de 2026 · São Paulo
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Falta de médicos, filas e mortes: os desafios da saúde do DF

Reeleita no Distrito Federal, Celina Leão enfrenta superlotação, déficit de profissionais e crise na assistência pública.

Em resumo

  • Celina Leão foi reeleita governadora do Distrito Federal e terá a saúde pública como principal desafio.
  • Hospitais e UPAs registraram superlotação extrema, com taxas de ocupação chegando a 400% em algumas unidades.
  • O governo mapeia déficit de profissionais e investiga mortes recentes em unidades de saúde do DF.

Reeleita para governar o Distrito Federal pelos próximos quatro anos, Celina Leão (PP) terá como um dos principais desafios a reorganização da saúde pública. Nos últimos anos, reportagens mostraram uma rede marcada por hospitais e UPAs superlotadas, falta de profissionais, filas para cirurgias e episódios que colocaram em xeque a qualidade da assistência prestada à população. O ápice da crise ocorreu no primeiro semestre, após uma sequência de mortes investigadas por suspeita de negligência. Celina, que já havia assumido o cargo, reconheceu o sucateamento na estrutura e afirmou que era necessário melhorar o atendimento. Embora o governo tenha anunciado medidas para ampliar a capacidade da rede — como a convocação de médicos e a abertura de novas vagas —, hospitais e UPAs continuaram registrando problemas de superlotação e dificuldade para absorver a demanda.

Superlotação e filas

Um dos problemas mais persistentes da rede pública de saúde do DF é a superlotação. Em novembro de 2025, dados obtidos via Lei de Accesso à Informação (LAI) mostraram que o pronto-socorro do Hospital Regional de Taguatinga operou acima da capacidade máxima por pelo menos um ano. Em alguns meses, a ocupação ultrapassou 250%, o equivalente a mais que o dobro do número de pacientes previsto para a estrutura disponível. A situação também afeta as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). Em julho deste ano, dados do Ministério Público do Distrito Federal apontaram que 11 das 13 Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs) da capital estavam operando com mais pacientes internados que a capacidade regular de acomodação.

A UPA Ceilândia II registrou taxa de ocupação de 400%. Além disso, atualmente, o Mapa Social da Saúde do Ministério Público mostra mais de 33 mil solicitações de cirurgia eletiva. Na primeira entrevista à TV Globo após a reeleição, em 27 de outubro, Celina prometeu que vai reduzir o tempo de espera por cirurgias na saúde. "Você não pode deixar uma pessoa esperar, dependendo da gravidade ou do tipo de cirurgia, mais do que dois meses. O que a gente está trabalhando é tempo de espera.", afirma. Ela prometeu ainda a entrega de cinco UPAs até o fim do ano e destacou o lançamento do programa "Prontuário do Paciente", que proporciona o histórico digital unificado do usuário da rede pública.

Mortes em unidades de saúde

O pior momento recente da saúde pública do DF ocorreu em julho. Em menos de um mês, seis mortes em UPAs e hospitais públicos levaram familiares a denunciar possível negligência médica. Foram elas: Vilmar Pereira da Silva, de 49 anos, morreu sem receber atendimento na UPA do Recanto das Emas, em 20 de junho; Luciana Ferreira, de 34 anos, perdeu a primeira filha no parto após idas e vindas do hospital, em 29 de junho; Maria Vitória, de 5 meses, morreu após ser extubada de forma acidental na transferência entre o Hospital de Planaltina e o Hospital da Criança de Brasília, em 6 de julho; Maria Graciana Andrade Alves, de 36 anos, morreu durante o parto no Hospital de Samambaia, em 10 de julho; Rodrigo Resende Prado, de 46 anos, morreu na calçada da porta do Hospital de Base em 12 de julho; Maria Aparecida Galdino dos Santos, de 25 anos, morreu durante o parto no Hospital Regional de Samambaia em 13 de julho.

Na época, o secretário de Saúde do Distrito Federal, Juracy Cavalcante, afirmou que todos os casos estavam sendo investigados, mas defendeu que os episódios eram "fatos isolados" e não representavam a rotina da rede pública. Ao reconhecer o sucateamento, Celina Leão afirmou, entre outras propostas, que havia previsão para mudar o protocolo do atendimento pré-natal. "A gente não vai tolerar esse tipo de atendimento nos nossos hospitais. […] Eu tenho certeza que a gente precisa, realmente, melhorar. Há sim um sucateamento na falta de médicos na rede pública", disse Celina Leão em julho de 2026.

Falta de médicos

A escassez de profissionais também aparece entre os desafios da próxima gestão. Em janeiro de 2025, levantamento mostrou que faltavam médicos em todas as especialidades na rede pública de saúde do Distrito Federal, exceto intensivistas. Os dados, obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI), mostraram que faltavam 996 médicos entre clínicos, anestesiologistas, radiologistas e pediatras. Em julho de 2026, após a repercussão das mortes, Celina anunciou a intenção de convocar 508 profissionais, entre médicos generalistas e especialistas. A governadora também reconheceu a dificuldade para preencher as vagas. Segundo Celina, em um processo seletivo com 114 vagas, viabilizado com recursos remanejados após o cancelamento das comemorações do aniversário de Brasília, apenas 34 profissionais haviam tomado posse.

O secretário de Saúde do Distrito Federal, Juracy Cavalcante, afirmou que o governo estudava melhorar a remuneração dos médicos da rede pública para atrair profissionais e enfrentar o déficit de servidores. "Nós temos buscado alternativas para a contratação de médicos. Para vocês terem ideia, no nosso concurso de ginecologia obstetrícia, nós chamamos todo o cadastro de reserva e não tivemos nenhum profissional para assumir. Nós sabemos que tem uma oportunidade de melhoria na questão da remuneração médica e isso o governo está estudando justamente para a gente ser mais atrativo", afirmou na época. A última convocação ocorreu na segunda-feira seguinte à reeleição, em 26 de outubro, chamando 116 candidatos aprovados para médico generalistas, em caráter temporário, por um ano, sem possibilidade de prorrogação.

Gestão e propostas

O Iges-DF ocupa uma posição central nesse debate porque administra unidades importantes da rede pública, como o Hospital de Base, o Hospital Regional de Santa Maria e todas as UPAs da capital. O modelo de gestão e os resultados do instituto são alvo de questionamentos recorrentes. Em dezembro de 2025, o Tribunal de Contas da União apontou falhas graves no uso de recursos federais pelo Iges-DF, incluindo problemas em processos de contratação e indícios de irregularidades em serviços. Durante a campanha, Celina disse que pretende cortar gastos da área administrativa do Instituto de Gestão Estratégia do DF (Iges-DF).

Para a saúde, a governadora estabeleceu entre os compromissos reduzir o tempo de espera, fortalecer a atenção primária, modernizar os hospitais já existentes, valorizar os profissionais e usar a tecnologia para melhorar o acesso da população aos serviços. Entre as ações estão ampliar o programa Opera-DF, assegurar a inauguração de novos hospitais, implantar o IntegraSaúde e construir novas UPAs e unidades móveis.

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