O voto latino, que foi fundamental para eleger Donald Trump presidente dos Estados Unidos em 2024, apresentou uma guinada em direção ao Partido Democrata nos últimos dois anos e projeta votar em duas vezes mais candidatos democratas do que republicanos nas eleições de meio de mandato em 3 de novembro. Segundo pesquisas eleitorais, essa mudança pode retirar a maioria e os plenos poderes dos republicanos na Câmara dos Representantes e no Senado.
A fotografia intitulada “Separados pelo ICE”, que registra o drama de uma família de imigrantes equatorianos sendo dividida por agentes do ICE nos EUA, venceu o prêmio de Imagem do Ano de 2026 do World Press Photo, com autoria de Carol Guzy (ZUMA Press, iWitness para o Miami Herald/World Press Photo 2026). O cenário reflete a insatisfação citada pelo jornal The New York Times, que aponta: “Os latinos são o grupo de eleitores indecisos mais importantes da década de 2020. […] Os democratas obtiveram importantes ganhos entre os latinos, que podem ajudá-los a retomar o controle do Congresso”. A publicação projeta 61% de apoio desse eleitorado aos democratas, contra 31% aos republicanos.
Quais fatores explicam a perda de apoio a Trump?
Após conquistar uma parcela inédita de 44% dos votos latinos nas eleições presidenciais de 2024, Trump viu seu apoio derreter com essa parcela da população por dois fatores principais, segundo o professor Maurício Santoro, doutor em Ciência Política pelo Iuperj: sua política migratória, com as batidas do ICE e as deportações em massa, e sua política econômica, com o tarifaço e o aumento do custo de vida. “Esses dois elementos podem prejudicar bastante o Trump e fazer a diferença nas midterms”, afirmou Santoro. O cientista político acrescentou que “os latinos são a maior das minorias étnicas nos EUA”, representando cerca de 13% da população total do país.
Segundo o professor, “as operações do ICE contra imigrantes, clandestinos ou não, têm ferido muito as comunidades latino-americanas nos EUA. Essas ações afetaram profundamente várias comunidades, então há uma probabilidade muito alta de impactar nas urnas.” Com relação à economia, Santoro ressaltou que “a ironia é que o remédio que Trump propôs para combater a inflação acabou piorando muito o problema”. Isso porque o protecionismo e o aumento de tarifas aplicados pela Casa Branca causaram efeito reverso na inflação, gerando uma crise de custo de vida. “Isso ataca de maneira mais profunda as comunidades mais pobres, e os latino-americanos são uma comunidade relativamente pobre nos EUA”, completou.
Se antes deram um voto de confiança em Trump, agora dois terços dos eleitores latinos confiam mais no Partido Democrata do que no Partido Republicano quanto à imigração e à economia — esta última antes vista como ponto forte do presidente —, de acordo com pesquisa Times/Siena. Diante desse cenário, a abstenção será um fator-chave para definir a influência nas urnas. Como a eleição ocorrerá em um dia comum da semana, ambos os lados precisará mobilizar suas bases. O Partido Republicano detém a maioria na Câmara e no Senado, mas pesquisas indicam que os democratas devem se tornar maioria em pelo menos uma das casas legislativas.
Como está a aprovação de Trump entre os eleitores?
Apenas 54% dos eleitores que votaram em Trump em 2024 aprovam seu governo, segundo pesquisa do instituto Pew Research feita em outubro, o que mostra uma queda acentuada em relação aos 93% de aprovação no início de seu mandato. As batidas do ICE também fizeram aumentar o número de latinos que acreditam que as políticas de Trump ameaçam sua comunidade. Além disso, 30% dos latinos eleitores do presidente republicano afirmam que ele foi longe demais em sua investida anti-imigração. A pesquisa indicou ainda que 11% dos latinos que votaram em Trump em 2024 afirmaram que vão votar em um candidato democrata para o Congresso, e o eleitorado latino pró-democrata está mais engajado (53%) do que o pró-republicano (43%).
A perda de apoio atinge também o público geral dos EUA. Segundo pesquisa Reuters/Ipsos, o presidente atingiu o menor índice de popularidade de seus dois mandatos, com apenas 31% de aprovação a menos de duas semanas das eleições de meio de mandato.
Os latinos podem mudar o resultado eleitoral no Texas?
Os latinos compõem quase um terço do eleitorado no Texas, que registra uma das disputas mais acirradas pela cadeira do Senado dos EUA. O democrata James Talarico aparece à frente do republicano Ken Paxton na intenção de voto: Talarico soma de dois a seis pontos percentuais a mais que Paxton na média das cinco principais pesquisas de outubro, figurando com 48,4% contra 45,8%. “O Texas tem uma presença latina muito forte, então se houver uma guinada expressiva do voto latino contra o Trump vai ter impacto nas urnas, não tem jeito”, afirmou Santoro. Caso o cenário se concretize, o estado terá um senador democrata pela primeira vez em quase 40 anos. A liderança de Talarico ocorre perante o apoio do bilionário Elon Musk e do presidente Trump ao adversário. “Estamos literalmente disputando contra o homem mais rico do mundo e o mais poderoso do mundo”, declarou Talarico ao NYT.
Imigração ilegal e criminalidade nos EUA
As comunidades latinas estão entre as mais afetadas pela investida anti-imigração no segundo mandato de Trump, que costuma declarar publicamente que imigrantes ilegais seriam responsáveis pelos índices de criminalidade no país. No entanto, uma pesquisa liderada pela Universidade da Califórnia e publicada em agosto constatou a redução de crimes violentos (homicídios, agressões graves e crimes contra o patrimônio) e associados à pobreza em comunidades dos EUA que registraram alta na quantidade de imigrantes ilegais. O estudo analisou 11,5 mil bairros em mais de 100 cidades americanas. Segundo a coautora Charis Kubrin, a análise foi a primeira a avaliar bairros inteiros em abrangência nacional, com achados que seguem a linha de outras pesquisas sobre o assunto.



















