Pesquisas indicam que cerca de 25% dos cidadãos de Alberta são a favor da independência da província canadense. Para Keith Wilson, a província canadense de Alberta, no oeste do país, é um caso à parte. Alberta conta com enormes reservas de petróleo e gás, um setor agrícola de peso e uma mão de obra jovem e qualificada, o que faz de sua economia uma potência que não pode ser ignorada, diz Wilson — que apoia a independência da província.
A província realiza um plebiscito nesta segunda-feira (19), oferecendo aos moradores duas opções: votar pela permanência no Canadá ou votar para dar início ao processo de preparação de um referendo sobre a independência em uma data futura. Embora a consulta não seja uma escolha direta entre “ficar ou sair”, ela ainda tem potencial para se tornar um dos acontecimentos mais significativos da história recente do Canadá e um importante teste para a unidade nacional.
Alberta seria mais rica se fosse um país independente?
Uma questão fundamental é central no debate: Alberta seria mais rica se fosse um país independente? Para Wilson, a resposta é sim. “A economia de Alberta é única. É fundamentalmente diferente do resto do Canadá — temos as pessoas, as instituições e a infraestrutura necessárias para prosperar”, afirma ele. Os separatistas de Alberta argumentam há muito tempo que a província tem sido prejudicada por fazer parte do Canadá e que uma maior parte da riqueza proveniente do petróleo e do gás deveria permanecer dentro de suas fronteiras, em vez de ser compartilhada com o governo federal em Ottawa, o que geraria uma economia de dezenas de bilhões de dólares.
Mas muitos discordam desses cálculos. A primeira-ministra de Alberta, Danielle Smith, que se opõe à independência, prevê um desfecho mais sóbrio. Ela afirma que a província poderia ter de arcar com cerca de 400 bilhões de dólares canadenses (R$ 1,4 trilhões) apenas em custos de transição, além de perder bilhões em investimentos e comércio devido à turbulência política. Um relatório encomendado pelo governo de Danielle Smith e divulgado no início deste mês estimou que os custos da separação ficariam entre 50 bilhões e 170 bilhões de dólares canadenses (R$ 180 bilhões e R$ 610 bilhões) ao longo de cinco anos, além de apontar perspectivas altamente imprevisíveis para o longo prazo.
O relatório adverte que uma Alberta independente teria pela frente uma extensa lista de medidas a implementar, a um custo elevado. O governo teria que criar agências para administrar impostos e segurança nacional, desenvolver sua própria constituição, sistemas jurídico e judicial, e planos de pensão, além de negociar a divisão de ativos federais, como parques nacionais e bases militares. Lennie Kaplan, ex-funcionário da área financeira de Alberta, afirma que se espera que a província assuma uma parcela da dívida nacional do Canadá, entre muitos outros desafios e responsabilidades fiscais.
Um relatório sobre a independência de Alberta, elaborado pela CanadaWest Foundation, um centro de estudos sem fins lucrativos com sede em Alberta, estima que a província poderá ficar com uma dívida adicional que varia entre 258 bilhões e 333 bilhões de dólares canadenses (R$ 925 bilhões e R$ 1,2 trilhões). Com o impacto projetado sobre o PIB de Alberta e os custos adicionais envolvidos, o relatório estima que a separação poderia afetar diretamente o bolso dos moradores da província, reduzindo sua renda disponível em média em 5,8%. “Por que precisamos criar toda essa incerteza que pode impactar e prejudicar a situação fiscal da província no futuro? Por que não trabalhamos internamente no Canadá para resolver esses problemas?”, questiona Kaplan.
Motivações e o peso do petróleo na economia
Pesquisas de opinião indicam que entre 20% e 25% dos moradores de Alberta pretendem votar a favor do avanço para um referendo sobre a separação, com níveis de apoio mais elevados entre eleitores mais jovens, residentes de áreas rurais e conservadores. Por trás do movimento separatista está a crença de que Alberta é incompreendida e negligenciada pelos tomadores de decisão do governo federal em Ottawa. Durante décadas, esse sentimento alimentou a sensação de que as províncias do oeste do país são ignoradas pelo governo central.
Alberta abriga o setor de petróleo e gás do Canadá, com reservas de petróleo estimadas como as quartas maiores do mundo. O petróleo bruto é, de longe, o produto de exportação mais lucrativo do Canadá, representando 142 bilhões de dólares canadenses (R$ 500 bilhões) somente em 2025. A maior parte é vendida para refinarias nos EUA. A província possui o maior PIB per capita do país e contribui com bilhões anualmente para a arrecadação de impostos federais devido à sua economia forte. A província não recebe pagamentos de “equalização” desde 1965.
Cálculos realizados por Tegan Hill e Nathaniel Li, economistas do centro de estudos Fraser Institute, mostram que a contribuição líquida total de Alberta para Ottawa desde 2007 foi de 322 bilhões de dólares canadenses. “Isso é quase quatro vezes mais do que na Colúmbia Britânica, mais de quatro vezes mais do que em Ontário”, disse Hill à BBC. “As outras sete províncias foram beneficiárias líquidas, o que significa que Ottawa gastou ou transferiu mais dinheiro para essas províncias do que arrecadou.”
Projeções financeiras e o debate sobre o futuro
Em seu plano fiscal, o Alberta Prosperity Project estima que Alberta economizará até 47 bilhões de dólares canadenses (R$ 170 bilhões) anualmente se deixar de pagar impostos federais. O plano reconhece que os custos seriam maiores com despesas como defesa nacional e diplomacia internacional, estimando esses custos em até 31,6 bilhões de dólares canadenses (R$ 130 bilhões) anualmente, somados aos cerca de 75 bilhões de dólares canadenses (R$ 270 bilhões) ao ano de saúde e educação.
Vários economistas argumentam que essas projeções carecem de clareza e provavelmente superestimam o retorno financeiro. O primeiro-ministro Mark Carney costuma apontar o Brexit como um exemplo de advertência para Alberta. Wilson rejeita essa comparação, argumentando que “a dinâmica fundamental é completamente diferente” e que “somos uma economia baseada em recursos naturais. Temos poder de negociação. Temos produtos que o mundo deseja”.



