Terça-feira, 20 de outubro de 2026 · São Paulo
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Estudo da USP identifica alvo promissor para tratar a doença de Chagas

Pesquisadores conseguiram interromper o ciclo de infecção do Trypanosoma cruzi ao reduzir a produção de uma proteína.

Pesquisadores da Universidade de São Paulo e colaboradores identificaram um alvo promissor para o desenvolvimento de novos tratamentos contra a doença de Chagas. Em testes de laboratório, o grupo conseguiu interromper o ciclo de infecção do parasita Trypanosoma cruzi ao reduzir a produção de uma de suas proteínas. Sem essa molécula em níveis adequados, o patógeno perdeu a capacidade de se diferenciar em sua forma infectante dentro de células cardíacas humanas, tendo seu desenvolvimento gravemente comprometido. A descoberta foi detalhada em artigo publicado em agosto na revista Communications Biology.

“Desenvolvemos uma versão do parasita deficiente para a proteína IP6K. Ele até entra na célula e se replica, mas com dificuldade. Sua diferenciação em formas infectantes é prejudicada, o que leva à redução das formas sanguíneas a cada novo ciclo de infecção intracelular”, disse Thaise Lara Teixeira, coautora do estudo, desenvolvido durante pós-doutorado no Instituto de Química da USP. Teixeira atualmente é professora visitante no Programa de Pós-Graduação em Imunologia e Parasitologia Aplicadas da Universidade Federal de Uberlândia.

Segundo os pesquisadores, uma evidência de que a IP6K realiza uma importante função no ciclo de vida do T. cruzi foi a dificuldade de produzir em laboratório versões do parasita que não expressassem a proteína. “Quando eram deletadas as duas cópias do gene que codifica a proteína IP6K, por meio de edição gênica, os parasitas simplesmente não sobreviviam para que os testes pudessem ser feitos nas células cardíacas. Por isso, os parasitas usados no estudo ainda tinham uma cópia desse gene”, afirmou Bryan Etindi Abuchery, que participou da pesquisa durante o mestrado no Instituto de Biociências de Botucatu da Universidade Estadual Paulista, com apoio de bolsa da Fapesp.

Ciclo de vida e desafios

O ciclo de vida do T. cruzi é relativamente complexo, uma das causas do seu sucesso evolutivo e de sua resistência a tratamentos. O fato de o estudo ter encontrado uma forma de interromper esse ciclo é um dos fatores que o tornam promissor. “Se com baixos níveis de expressão de IP6K o parasita já fica tão prejudicado, é possível crer que, caso seja desenvolvido um fármaco que possa atuar especificamente nesta proteína, tenhamos um tratamento eficaz”, afirmou Silva.

Segundo o Ministério da Saúde, houve cerca de 400 casos de doença de Chagas no Brasil em 2025. A OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que a doença afete 8 milhões de pessoas no mundo, a maioria na América Latina. Depois de uma fase aguda sem sintomas ou com sintomas inespecíficos, período que dura de 4 a 8 semanas, a doença chega no estágio crônico. Anos depois da infecção, por vezes décadas, de 20% a 30% dos pacientes desenvolvem problemas cardíacos que podem levar à morte, e cerca de 10% têm alterações digestivas.