Na família da social media maranhense Sara Duarte, de 30 anos, as eleições de 2026 marcaram uma virada. Pela primeira vez, Sara não seguiu os tradicionais votos de casa no PT do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e escolheu Flávio Bolsonaro (PL).
Filha de uma ex-empregada doméstica e um ex-funcionário de padaria que conseguiu um emprego na Vale, Sara diz que ainda entende o sentimento de “gratidão” da família às políticas sociais dos governos Lula que os beneficiaram. Mas, diz ela, agora seu pensamento é outro: o de que as pessoas conquistam as coisas por seu “mérito” e que políticas sociais como Bolsa Família, apesar de importantes, acabam “acomodando” pessoas que não querem “crescer”.
Essa mudança foi moldada junto à sua mudança para Balsas, a “capital da soja” do interior do Maranhão. “Eu passei a conviver com uma cidade ligada ao agronegócio, com empresários e pessoas que empreendem e enxergam outras necessidade. Então, comecei a mudar minha mentalidade e a partir desse momento”, diz Sara. Ela optou pelo candidato do PL por ser o “único com chance” de derrotar o atual presidente.
Impacto nas urnas e o efeito agro
As urnas mostraram que Lula perdeu participação nos votos válidos em 25 das 27 unidades da Federação em relação à primeira volta de 2022. No Maranhão, o recuo foi de 4,94 pontos percentuais, saindo de 68,84% em 2022 para 63,91% em 2026. As cidades onde o presidente mais perdeu votos no Nordeste estão no Matopiba, como Balsas (-13,27 p.p.) e Tasso Fragoso (-14,37 p.p.).
O artista plástico Felipe Crispim, de 30 anos, morador de Balsas, também mudou seu voto. Ele cita a economia, investigações noticiadas e o alinhamento do governo com o STF como fatores. “A gente, o Brasil como um todo, deu essa nova chance a Lula para ficar de 2022 a 2026 com o pensamento de não haver mais escândalos como esses”, defende. Felipe, que votou em Lula em 2022, hoje reavalia posições e defende a alternância de poder.
O economista Fernando Rugitsky aponta a consolidação do “agrobolsonarismo”, movimento que encontra sustentação em camadas intermediárias de produtores rurais. O Instituto Quaest reforça que o crescimento dos votos de Flávio Bolsonaro acompanhou a participação do agronegócio nas cidades. “Em uma cidade organizada ao redor da lavoura ou da pecuária, o desempenho do setor alcança o comércio, as oficinas, os transportes e os serviços”, explica Felipe Nunes, da Quaest.
O caso de São João do Triunfo
Outro exemplo é o município paranaense de São João do Triunfo, historicamente ligado ao PT. Em 2026, Lula perdeu para Flávio Bolsonaro na cidade, com sua votação encolhendo mais de 35%. O prefeito Mário Cezar Silva (PT) reconhece a identificação da população com o agronegócio: “O discurso associado à propriedade rural, à produção, à liberdade econômica, a menos impostos, segurança, tudo isso as pessoas colocam como oposição ao PT”.



