O acúmulo de elevadas dívidas por empresas para financiar a expansão da inteligência artificial está gerando preocupação em Wall Street, impulsionado pela alta das taxas de juros e incertezas sobre o ritmo de crescimento dos data centers. No centro da turbulência está a CoreWeave, empresa de tecnologia sediada em Nova Jersey, que acumula cerca de US$ 52 bilhões em dívidas e obrigações de arrendamento no segundo trimestre e registrou uma queda de 30% nas suas ações neste mês.
A CoreWeave faz parte do subsetor chamado neoclouds, que alugam poder computacional para companhias que desenvolvem tecnologia de IA. Embora o segmento represente uma oportunidade de alto crescimento para investidores diante da intensa demanda, a dependência de dívidas da CoreWeave gera pressão financeira, com os rendimentos de seus títulos disparando para níveis que sinalizam dificuldades em um cenário no qual a empresa opera sem lucratividade.
A situação leva Wall Street a questionar se a CoreWeave é um sinal de alerta geral ou um caso isolado. Gil Luria, chefe de pesquisa de tecnologia da D.A. Davidson, disse que: “Canário na mina de carvão implica que, se a CoreWeave falir, todo o ecossistema vai desmoronar, que toda a economia de IA vai fracassar. Não acho que seja esse o caso”. Luria acrescentou que “a economia de IA está cheia de bons e maus comportamentos” e completou: “Eles são uma maçã podre, mas há outras maçãs podres. Eles apenas representam parte desse mau comportamento.” Além disso, reforçando as dúvidas sobre o setor, a empresa de data centers de IA Elice Group despencou 32% em sua estreia na bolsa de valores da Coreia do Sul na terça-feira, aumentando as preocupações com avaliações e retornos.
Dívidas do setor de IA entram em foco
Os US$ 52 bilhões em dívidas e obrigações de arrendamento registrados no balanço da CoreWeave no segundo trimestre representam uma alta em relação aos aproximadamente US$ 30 bilhões observados no final de 2025. O custo dos empréstimos subiu com o disparo dos rendimentos dos títulos este ano, tornando empresas menores e endividadas mais vulneráveis. Na semana passada, os juros de alguns títulos da companhia subiram para 15%, patamar que sinaliza risco elevado de inadimplência.
Gil Luria afirmou que a CoreWeave exemplifica o risco de “financiar investimentos especulativos com dívida”. Sético quanto ao volume de dívida assumido pela empresa desde que abriu capital em 2025 sem um caminho claro para a lucratividade, o analista destaca a vulnerabilidade a variações de juros e desaceleração de data centers. Ao mesmo tempo, o aumento da rejeição pública a esses centros faz com que investidores avaliem se moratórias poderiam impactar os prazos e tamanhos dos projetos.
A reações dos mercados e as perspectivas do setor
A incerteza financeira em torno da CoreWeave contribuiu para a queda das ações de tecnologia na semana passada, embora analistas de Wall Street avaliem que a reação pode ter sido exagerada. Em nota publicada na segunda-feira, Ajay Rajadhyaksha, presidente global de pesquisa do Barclays, comparou o cenário ao início de 2023, quando falências de bancos regionais levantaram temores de uma crise generalizada. “Era um argumento plausível. Também estava errado”, escreveu Rajadhyaksha, acrescentando que “da mesma forma, os investidores não deveriam extrapolar os desafios recentes da dívida da CoreWeave para uma visão sobre todo o ciclo de capex de IA”.
Apesar de o endividamento da CoreWeave preocupar acionistas, analistas não veem risco sistêmico para a expansão geral da inteligência artificial. Luria declarou que “o único risco sistêmico para o ecossistema agora é se as pessoas pararem de usar IA e não estiverem dispostas a pagar por ela”, observando que “na verdade, acho que a demanda por IA está crescendo tão rápido que quaisquer possíveis falhas provavelmente estão lá na frente.” Wall Street mantém a confiança nos gigantes do setor, como Alphabet, Microsoft e Nvidia, que continuam incentivados a construir enquanto a demanda por poder computacional superar a oferta.
Entretanto, como as grandes empresas de tecnologia também aumentaram os gastos de caixa para expandir em IA, o uso de mais dívida aliado a juros altos pode se tornar um obstáculo maior caso voltem a queimar caixa. Sobre o momento atual, Luria concluiu: “Nossa ruína sempre acontece quando assumimos dívida demais.” O especialista ressaltou ainda que “é desnecessário, mas períodos de boom, oportunidade e fronteira acabam se tornando uma espécie de Velho Oeste, e comportamentos ruins se seguem.” Por fim, destacou: “Isso não significa que o crescimento está errado ou que a tecnologia é ruim”, afirmando que “significa apenas que há comportamentos ruins que geralmente acompanham grandes ciclos de crescimento.”



