A imigração sempre foi um tema central no discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em 2015, ele desceu a escada rolante dourada da Trump Tower, em Nova York, para anunciar a candidatura que o levaria ao seu primeiro mandato presidencial. Na oportunidade, Trump acusou o México de enviar drogas e criminalidade para os Estados Unidos, o que passou a ser um lema constante desde então. Durante o seu primeiro mandato (2017-2021), a Justiça americana limitou algumas de suas ambições para frear o fluxo de possíveis imigrantes. Mas estas restrições diminuíram após o seu retorno à Casa Branca em 2025, graças a uma Suprema Corte mais permissiva e às dezenas de bilhões de dólares adicionais destinados pelo Congresso para a implementação de medidas para controlar a migração ilegal. A questão sobre quem deve receber permissão para morar nos Estados Unidos segue sendo um tema importante nas eleições de meio de mandato do dia 3 de novembro, consideradas, em grande parte, um referendo sobre o governo Trump.
Na sua campanha vitoriosa de 2024, o atual presidente prometeu o fechamento das fronteiras e deportações em massa. Poucos podem negar que ele tenha cumprido as duas promessas. Mas, mesmo entre aqueles que votaram a favor de uma política mais rígida, existe a preocupação de que a repressão possa ter ido longe demais. Sua emblemática política se manifestou de cinco formas principais, refletidas claramente nos gráficos abaixo. Os cruzamentos das fronteiras dispararam durante o mandato do ex-presidente Joe Biden (2021-2025). Foram registrados mais de 4,5 milhões “encontros” (número de abordagens, interceptações ou detenções feitas pelas autoridades) de migrantes na fronteira sul dos Estados Unidos, apenas entre 2023 e 2024. Este número é um indicador da enorme quantidade de pessoas que tentaram cruzar a fronteira entre o México e os EUA. Em um dado momento, o governo Biden acabou reduzindo significativamente os números mensais, restringindo os pedidos de asilo e expulsando os migrantes que entravam ilegalmente nos Estados Unidos, sem passar pelos trâmites de entrada no país.
Quando Donald Trump retornou à Casa Branca, este fluxo de migrantes foi drasticamente reduzido e o número de “encontros” na fronteira desabou. E, ao final do primeiro ano do segundo mandato de Trump, as cenas caóticas que ocuparam as manchetes de todo o mundo durante o governo Biden, haviam praticamente desaparecido. Durante uma viagem à cidade fronteiriça de El Paso, no Estado americano do Texas, em novembro de 2025, a BBC encontrou ruas tranquilas onde, antes, havia acampamentos improvisados com milhares de imigrantes. Eles haviam recebido permissão temporária para aguardar os trâmites de imigração dentro dos Estados Unidos. Para atingir o que o presidente costuma descrever como a fronteira “mais segura” da história dos Estados Unidos, o governo Trump adotou um enfoque agressivo em várias frentes. As medidas incluíram o congelamento efetivo dos pedidos de asilo na fronteira, o fim da prática de “deter e liberar” os migrantes nos Estados Unidos, o deslocamento de soldados para a fronteira e a pressão sobre o México para reduzir o fluxo de pessoas que se dirigem à fronteira norte do país.
“O presidente Trump prometeu ao povo americano uma fronteira segura e os dados demonstram que ele cumpriu sua promessa”, declarou o secretário de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Markwayne Mullin, em um comunicado no último dia 16 de outubro. “Os resultados não poderiam ser mais claros: a aplicação rigorosa da lei funciona.” A construção de um “grande e belo muro” nos mais de 3 mil quilômetros de fronteira entre os Estados Unidos e o México foi uma das promessas emblemáticas da primeira campanha de Donald Trump à Presidência americana, em 2016. O progresso neste sentido foi acelerado durante o seu segundo mandato, impulsionado por US$ 46,5 bilhões (cerca de R$ 250,5 bilhões) em novos fundos obtidos após a aprovação da lei batizada por Trump como One Big Beautiful Bill — o “Grande e Belo Projeto de Lei”, em tradução livre. Números do governo americano indicam que, antes do retorno de Trump à Casa Branca, já existiam cerca de 1 mil quilômetros de “muro principal” (o mais próximo à fronteira) e 120 km de muro “secundário”, localizado um pouco mais para dentro do território dos Estados Unidos. Desde então, foram completados mais 402 km de muros novos, com barreiras primárias, secundárias e aquáticas. Foram também acrescentados meios tecnológicos de detecção de cruzamentos ilegais.
Atualmente, existem também mais 2.322 km de barreiras em construção. Mas a visão dos especialistas sobre o que realmente foi construído é mais complexa, em comparação com o que foi simplesmente aprimorado ou atualizado. Além disso, o impacto do muro sobre os números de imigração como um todo é objeto de discussão nos Estados Unidos. “Desde que começou seriamente a construção do novo muro, não houve alterações significativas do número de pessoas que cruzam a fronteira”, segundo o especialista em controle de imigração Aaron Reichlin-Melnick, da organização sem fins lucrativos Conselho Americano de Imigração, com sede na capital dos Estados Unidos, Washington. Reichlin-Melnick afirma que não há indícios de que o muro tenha reduzido os cruzamentos da fronteira. Para ele, a redução verificada se deve mais às políticas e à mensagem de Donald Trump. Por outro lado, o presidente americano continua apresentando o muro como uma política vitoriosa — e continua a afirmar que o México teria pago pela sua construção. “Sou o rei do muro”, declarou Trump em 17 de outubro, em um comício no Estado americano de Kentucky. “A propósito, o México pagou por aquele muro. Eu cobrei tarifas e cobrei custos como eles nunca pagaram na história.”
Mas a maioria das manchetes sobre a política de imigração de Donald Trump surgiu dentro dos Estados Unidos. As operações dos agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) em território americano, para deter pessoas acusadas de estarem ilegalmente nos Estados Unidos, sacudiram cidades de todo o país. Durante sua campanha, Trump prometeu o início imediato do que descreveu como “a maior operação de deportação da história americana”. E, segundo as autoridades, ela começaria com as pessoas que tivessem cometido crimes. As prisões e subsequentes detenções em centros de imigração aumentaram significativamente desde o retorno de Trump à Presidência — só em julho deste ano, foram quase 50 mil pessoas, segundo dados obtidos pelo Projeto de Dados sobre Deportação, um repositório de informações sobre imigração nos Estados Unidos, administrado pela Universidade da Califórnia em Berkeley e Los Angeles. Mas os mesmos dados demonstram que grande parte das detenções envolve pessoas sem condenações criminais. Em julho de 2026, as detenções de imigrantes com antecedentes criminais atingiram um mínimo histórico de 27%. E as deportações também aumentaram significativamente. Em meados de julho deste ano, o ICE vinha expulsando do país, em média, 1.255 pessoas por dia, contra cerca de 770 dos últimos meses do governo Biden — embora as deportações tenham aumentado drasticamente no último ano de mandato do presidente democrata.
Mas as táticas empregadas pelo ICE em cidades dos Estados Unidos geraram preocupação entre muitos americanos, incluindo grande parte dos que apoiavam restrições gerais mais duras. Esta situação ficou cada vez mais evidente no início de 2026, após a operação policial em larga escala conhecida como Metro Surge, na cidade de Minneapolis. Ela durou dois meses e deixou dois cidadãos americanos mortos. Uma pesquisa do jornal The New York Times e do instituto Siena, publicada em 21 de outubro, revelou que 50% dos eleitores confiam nos democratas para gerenciar este tema, contra 46% que confiam nos republicanos. Mas a questão da migração é tradicionalmente um ponto forte do Partido Republicano. Outra pesquisa, realizada pelo portal informativo Politico e pela consultoria Public First no final de setembro, revelou profundas divisões entre os republicanos: 31% dos republicanos que não são seguidores do movimento Maga de Donald Trump acreditam que a campanha contra a migração se tornou agressiva demais. Lema de campanha de Trump desde 2016, Maga é a sigla de “Make America Great Again” (Tornar a América Grande Novamente, em tradução livre).
Após seu regresso à Casa Branca no ano passado, Trump suspendeu quase que imediatamente a admissão de refugiados no país. O presidente declarou, na época, que esta política só retornaria se ficasse demonstrado seu benefício para os interesses dos Estados Unidos. Mas, em fevereiro, Trump assinou uma ordem executiva reabrindo este processo, de forma restrita aos afrikaners, um grupo étnico da África do Sul formado principalmente por descendentes de colonos europeus brancos. A Casa Branca vem afirmando repetidamente que os afrikaners estariam sendo mortos e “perseguidos”, embora o governo sul-africano negue esta situação. O limite máximo de admissão de refugiados para o ano fiscal de 2026 foi fixado inicialmente em 7,5 mil pessoas. Em maio, este número aumentou para 17,5 mil, devido ao que o governo descreveu como “situação de emergência imprevista relacionada aos refugiados”. De forma geral, a admissão de refugiados foi consideravelmente reduzida. Os dados do Departamento de Estado americano demonstram que 16.292 refugiados foram admitidos nos Estados Unidos no ano fiscal de 2026. Destes, 16.287 eram sul-africanos. Em termos de comparação, nos últimos dois anos fiscais do governo Biden (2023 e 2024), ingressaram no país 60 mil e 100 mil pessoas, respectivamente. No ano fiscal de 2024, a maior quantidade de refugiados veio da República Democrática do Congo, Afeganistão, Síria e Venezuela.
Centenas de milhares de pessoas protegidas contra a deportação perderam esta condição durante o segundo mandato de Donald Trump, com o cancelamento do Status de Proteção Temporária (TPS, na sigla em inglês). Este programa humanitário outorgava às pessoas que atendiam aos seus requisitos o direito de morar e trabalhar nos Estados Unidos, desde que fosse considerado inseguro retornar aos seus países de origem. Um destes países é o Haiti. Em junho, a Suprema Corte americana ratificou a decisão do governo Trump de pôr fim ao TPS para cerca de 350 mil cidadãos haitianos residentes nos Estados Unidos. Diversas mudanças da política migratória fizeram com que outras vias legais para quem quisesse morar e trabalhar nos Estados Unidos também passassem a ter normas mais rígidas. Cidadãos de dezenas de países considerados pelo governo Trump como de risco para a segurança nacional tiveram seus pedidos de vistos total ou parcialmente congelados. O endurecimento da checagem de dados pessoais e novas regras — que obrigam quem vive nos Estados Unidos a voltar ao seu país de origem para pedir a residência permanente — tornaram esse processo ainda mais lento.
Em setembro de 2025, a imposição de uma taxa de US$ 100 mil (cerca de R$ 540 mil) para os novos vistos H1-B, destinados a trabalhadores qualificados (em sua maioria, cidadãos indianos), abalou o setor americano de tecnologia. Em maio deste ano, o Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos anunciou no X que as inscrições para 2027 diminuíram em 40%. “Os dados são um claro sinal de que acabaram os dias de abuso do programa com inscrições em massa de trabalhadores com salários baixos e de que o programa está cumprindo melhor seu objetivo original de atrair trabalhadores estrangeiros altamente qualificados, protegendo os salários, as condições de trabalho e as oportunidades de emprego dos trabalhadores americanos”, destacou o comunicado. Um tribunal americano bloqueou temporariamente a taxa de US$ 100 mil, mas a mera ameaça dela ser imposta parece ter dissuadido empregadores. Especialistas alertam que o objetivo do governo de proteger os empregos americanos, aumentar os salários e impedir a subcontratação pode ser difícil de atingir. Um estudo da Escola de Negócios Wharton, da Universidade da Pensilvânia, concluiu que as mudanças do programa H1-B não trariam “nenhum impacto significativo” sobre os salários dos trabalhadores americanos, pois a eventual redução da concorrência seria compensada pela menor produtividade. Por outro lado, foram abertos outros caminhos para chegar aos Estados Unidos, desde que os interessados tenham US$ 1 milhão (cerca de R$ 5,4 milhões) disponíveis. Lançado em 2025, o “gold card de Trump” procurou atrair estrangeiros abastados para irem morar nos Estados Unidos, em troca de um “presente” de US$ 1 milhão para o governo americano, mais uma tarifa de solicitação não reembolsável de US$ 15 mil (cerca de R$ 80,8 mil). Trump afirmou, na época, que o programa impulsionaria a economia americana. Mas sua adoção, até o momento, parece ser mínima. Em abril, apenas uma solicitação havia sido aceita para o programa.



















