A China está produzindo mais carne e laticínios do que consegue consumir, e o excedente está sendo exportado para mercados tradicionalmente abastecidos por países como o Brasil, utilizando preços mais baixos e investimentos em tecnologia. O movimento é resultado de uma mudança no consumo interno e de uma estratégia do governo chinês para ampliar a segurança alimentar, incentivando a expansão da produção agropecuária nos últimos anos, enquanto a demanda doméstica perdeu força e criou um excesso de oferta.
Dados alfandegários mostrados pela agência Reuters revelam que a China exportou US$ 2,6 bilhões em produtos de frango em 2025, quase o dobro do valor registrado em 2020. No ano passado, o país também se tornou exportador líquido de carne de frango, passando a exportar mais do que importar o produto. A participação da China no mercado de produtos de aves processadas da União Europeia dobrou desde 2022, chegando a 10%, enquanto no Reino Unido a fatia chinesa triplicou e superou 14%, conforme dados da consultoria Gira citados pela Reuters. Além do frango, as exportações de laticínios devem alcançar US$ 600 milhões em 2026, o dobro do valor registrado três anos antes.
Mudança no consumo e oferta elevada
Durante décadas, a carne suína foi a principal proteína da dieta chinesa, mas houve uma redução do consumo de porco, especialmente entre moradores de áreas urbanas, que passaram a dar mais espaço a outras opções, como o frango. O consumo per capita de carne suína caiu 13% desde o pico registrado em 2023, segundo dados oficiais e informações da imprensa estatal chinesa. Na direção contrária, o consumo de frango por pessoa aumentou mais de 50% na década encerrada em 2024. Mesmo com a mudança nos hábitos alimentares e a desaceleração da economia, a produção continuou crescendo, atingindo um recorde de 59 milhões de toneladas de carne suína em 2025, enquanto a produção de aves avançou 7%.
Com a oferta elevada, os produtores chineses passaram a buscar compradores no exterior, impulsionados por subsídios e produção em larga escala que ajudam a reduzir custos. Entre 2022 e 2024, os subsídios representaram cerca de 13% da receita bruta dos produtores agrícolas chineses, quase três vezes o nível registrado no início dos anos 2000, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Na avicultura, empresas investiram em instalações maiores e processos mais eficientes; a companhia Wintop Food, ouvida pela Reuters, aumentou de 20 mil para 120 mil o número de frangos alojados em cada galpão ao longo de uma década.
Vantagem de preço e concorrência internacional
A vantagem de preço tem ajudado as empresas a conquistar clientes em mercados antes abastecidos por exportadores tradicionais. Segundo Ezequiel Pires, presidente da comerciante internacional de carnes Branexx, cortes chineses de peito e coxa de frango custam de 10% a 20% menos que os produtos brasileiros. A Branexx começou a comprar aves da China em março, após clientes africanos procurarem alternativas mais baratas às importações do Brasil. Na Tailândia, concorrente no setor, representantes da indústria local afirmam que compradores usam os preços chineses como referência para negociar com outros fornecedores.
Apesar do avanço comercial, a indústria chinesa ainda enfrenta dúvidas relacionadas ao histórico de escândalos de segurança alimentar no país. Para consolidar as exportações, os produtores precisam demonstrar que seus produtos atendem aos padrões sanitários e mantêm qualidade e rastreabilidade consistentes. Na União Europeia, os alimentos importados devem cumprir as mesmas exigências aplicadas aos produtos locais, e o bloco planeja reforçar a identificação da origem dos alimentos, começando por produtos de aves em 2027. Para os compradores internacionais, contudo, o preço continua sendo um fator decisivo que pode ampliar a presença chinesa no comércio global de proteínas.



