Sexta-feira, 30 de outubro de 2026 · São Paulo
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Ciência quer descobrir se nojo influencia posições políticas

Estudos investigam a relação entre a sensibilidade ao nojo e convicções políticas conservadoras e liberais.

Em resumo

  • Pesquisadores investigam se a sensibilidade ao nojo ajuda a explicar posicionamentos políticos sociais.
  • Uma revisão analisou 24 estudos sobre a relação entre nojo patogênico, moral, sexual e o conservadorismo.
  • Estudo com 632 americanos avaliou como a percepção corporal e interocepção afetam julgamentos.

Alguns estudos já associaram a sensibilidade ao nojo a posições socialmente conservadoras. Mas o nojo influencia convicções políticas ou são as crenças que determinam o que é considerado repulsivo?

O cheiro de comida estragada pode provocar uma reação imediata de repulsa. Certas práticas sexuais podem gerar uma sensação semelhante. E, no atual clima de polarização, até mesmo adversários políticos podem se tornar alvo de sentimentos de nojo.

Há décadas psicólogos investigam se a sensibilidade ao nojo ajuda a explicar posicionamentos políticos. Uma revisão de 24 estudos concluiu que pessoas que relatam sentir nojo com mais facilidade tendem a apresentar visões mais conservadoras em temas sociais.

Uma das explicações parte da evolução. “Acreditamos que esse mecanismo evoluiu, em parte, para reduzir a exposição a coisas que podem nos deixar doentes”, afirma o psicólogo Yoel Inbar, da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá.

Mas o nojo não é uma emoção única. A Escala dos Três Domínios do Nojo, desenvolvida em 2009, distingue três categorias.

A primeira delas é o nojo patogênico, quando ocorrem reações a potenciais fontes de infecção, como comida estragada, vômito ou resíduos corporais. Já a segunda é o nojo sexual, que se refere às reações a determinados comportamentos ou situações sexuais. E o terceiro é o nojo moral, uma reação a comportamentos considerados errados, como traição ou crueldade. Pesquisadores discutem se esse último representa uma sensação física de repulsa ou apenas desaprovação moral.

Uma das teorias sugere que pessoas particularmente preocupadas com germes e doenças tendem a preferir normas sociais mais tradicionais. Segundo Inbar, evitar possíveis fontes de contaminação também pode significar abrir mão de novas experiências. “Algumas pessoas tendem mais à cautela e ao conservadorismo, enquanto outras são mais inclinadas à exploração e à aceitação de riscos quando se trata da exposição a possíveis agentes patogênicos”, disse.

A linguagem da contaminação também aparece na retórica política. Durante sua campanha presidencial de 2024, Donald Trump afirmou repetidamente que os imigrantes estariam “envenenando o sangue do nosso país”. O próprio republicano já se descreveu como “germofóbico”.

Ainda assim, Inbar reconhece que as evidências que relacionam sensibilidade ao nojo e posições políticas conservadoras permanecem inconclusivas. “Temos hipóteses. Não sei se temos evidências tão sólidas quanto eu gostaria”, afirmou.

O nojo não é uma característica exclusiva dos conservadores. Aquilo que as pessoas consideram repulsivo pode depender dos seus valores. Um estudo de 2020 intitulado O nojo é uma emoção conservadora? concluiu que liberais e conservadores se sentem incomodados por coisas diferentes.

Conservadores, geralmente associados ao Partido Republicano nos EUA, relataram maior repulsa diante de exemplos envolvendo comportamentos sexuais e uso de drogas. Liberais, em geral vinculados ao Partido Democrata, demonstraram maior repulsa a maus-tratos contra animais e à poluição ambiental.

Entretanto, quando questionados sobre a frequência com que sentem nojo de forma geral, não houve diferença clara entre os grupos políticos.

Algumas pesquisas iniciais já sugeriram que conservadores apresentariam reações físicas mais intensas diante de imagens assustadoras ou repulsivas, quando elas são medidas, entre outros indicadores, por alterações na transpiração. Pesquisas posteriores, porém, incluindo um estudo de 2020 conduzido pelo psicólogo político Bert Bakker, da Universidade de Amsterdã, tiveram dificuldade em reproduzir esses resultados.

Já os estudos baseados em questionários geralmente encontram uma associação entre atitudes mais conservadoras e a percepção de sentir nojo com maior facilidade.

“Se as reações corporais não diferem entre grupos políticos, por que os sentimentos diferem?”, questiona Manos Tsakiris, do Centro para a Política dos Sentimentos, da Universidade de Londres.

Tsakiris e sua colega Mariana von Mohr levantaram a hipótese de que a resposta poderia estar na forma como as pessoas percebem e interpretam sinais provenientes do próprio corpo.

Os cientistas chamam de “interocepção” a percepção de sensações internas, como fome, respiração ou aceleração dos batimentos cardíacos. O conceito é por vezes descrito como um “oitavo sentido”, somando-se aos cinco sentidos tradicionais e aos sentidos de equilíbrio e posição corporal.

“Um sinal corporal não chega com uma etiqueta dizendo o que ele significa”, explicou Tsakiris. “Precisamos percebê-lo e interpretá-lo.”

Os pesquisadores entrevistaram 632 americanos adultos e perguntaram até que ponto eles percebiam e confiavam nos sinais emitidos por seus corpos, medida conhecida como “sensibilidade interoceptiva”.

Os resultados mostraram que pessoas mais facilmente incomodadas por comportamentos sexuais tendiam a ser mais conservadoras, independentemente do grau de percepção corporal relatado. Já a associação entre nojo moral e conservadorismo apareceu apenas entre participantes que relataram menor percepção dos próprios sinais corporais.

O que mais surpreendeu Tsakiris foi o fato de que a percepção corporal, por si só, não apresentou relação direta com posicionamentos políticos. “Pessoas muito conectadas com seus corpos não eram nem mais liberais nem mais conservadoras.”

Inbar questiona se todas as formas de nojo são igualmente úteis para estudar atitudes políticas. Ele e Joshua Tybur, um dos criadores da Escala dos Três Domínios do Nojo, preferem concentrar suas análises no nojo patogênico, ligado a possíveis fontes de doenças, em vez do nojo sexual. Segundo Inbar, perguntas sobre nojo sexual podem refletir, na prática, crenças conservadoras sobre sexualidade. “É quase como perguntar a mesma coisa duas vezes”, afirmou.

O novo estudo não encontrou uma associação estatisticamente significativa entre nojo patogênico e visões políticas conservadoras.

Inbar considera importante que os resultados envolvendo percepção corporal e nojo sejam reproduzidos em novas pesquisas, com hipóteses definidas previamente. Por enquanto, ele avalia as conclusões como “no máximo sugestivas”.

Tsakiris sugere que pessoas com mais dificuldade para compreender os próprios sinais corporais podem ser mais vulneráveis a discursos políticos que lhes dizem o que estão sentindo. “Eu sei o que você está sentindo. Você está com raiva ou sente nojo por causa desta questão”, exemplificou, descrevendo como alguém pode atribuir um significado emocional ao desconforto de outra pessoa.

Segundo ele, esse tipo de rotulagem pode influenciar comportamentos políticos, embora o estudo não tenha investigado diretamente essa possibilidade. “É assim que o nojo pode desempenhar um papel político: ao transformar julgamentos morais sobre indivíduos em julgamentos sobre grupos inteiros”, disse.

As pesquisas não permitem determinar se o nojo molda as crenças políticas ou se crenças políticas preexistentes moldam o que as pessoas consideram repulsivo.

Bert Bakker observa que convicções políticas podem influenciar a forma como as pessoas descrevem a própria personalidade, sugerindo que a relação pode funcionar nos dois sentidos. “O comportamento eleitoral é muito complexo, e os cidadãos formam suas opiniões políticas de maneira complexa”, afirma.

Inbar também alerta contra exageros quanto à importância do nojo na política. “O ponto que merece destaque é que essa relação, embora consistente, é relativamente pequena”, ressalta. “Ela é apenas uma entre muitas influências que afetam as posições políticas das pessoas.”

Tsakiris defende o que chama de “sentimento crítico”: questionar as próprias reações emocionais diante de conteúdos provocativos, incluindo publicações nas redes sociais, da mesma forma que questionamos as informações que recebemos.

Ele também destaca a importância de conversar sobre sentimentos e ouvir perspectivas diferentes, mesmo em situações de discordância. “A vida, a política e a democracia são esportes de contato”, conclui.

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