Segunda-feira, 19 de outubro de 2026 · São Paulo

Nasa pode ter provas de vida em Marte, mas acesso ao material é incerto

Rover Perseverance coletou rocha com bioassinaturas potenciais, mas o programa de retorno das amostras à Terra foi cancelado pela agência espacial.

Em resumo

  • O rover Perseverance coletou a amostra Sapphire Canyon em Marte, que apresenta possíveis sinais de vida microbiana antiga.
  • O programa da NASA para trazer as amostras à Terra foi cancelado após atingir um custo de 11 bilhões de dólares.
  • A China planeja a missão Tianwen-3 para 2028, visando coletar e trazer amostras de Marte para a Terra até 2031.

Uma rocha com manchas semelhantes às de um leopardo, que poderia comprovar se já existiu vida fora da Terra, está localizada em um tubo em Marte. O rover Perseverance da NASA coletou a amostra, chamada Sapphire Canyon, de afloramentos rochosos nas bordas do Neretva Vallis, um vale esculpido por rios que outrora desaguavam em um antigo lago na Cratera Jezero, há mais de 3 bilhões de anos. O rover pousou no leito seco do lago em fevereiro de 2021 com o objetivo de buscar rochas criadas ou modificadas pela água no passado.

Membros da equipe científica do Perseverance afirmaram que a amostra do Sapphire Canyon, com aproximadamente o tamanho de um bastão de giz, é exatamente o tipo de rocha que esperavam descobrir. “Acho que esta é a primeira vez que encontramos algo que se qualifica como uma ‘bioassinatura potencial’ em Marte”, disse Adrian Broz, pesquisador da Universidade Purdue. “Atualmente, está selada dentro do chassi do rover Perseverance, onde permanece em silêncio aguardando o retorno à Terra.”

O futuro incerto do retorno das amostras

O programa de Retorno de Amostras de Marte, iniciativa conjunta da NASA e da Agência Espacial Europeia, atraiu escrutínio devido ao alto custo e complexidade. Após investir bilhões de dólares, a NASA suspendeu e reavaliou o programa em 2024, antes de cancelá-lo. “Embora as amostras da Perseverance permaneçam armazenadas em segurança em Marte, a NASA está explorando uma série de opções de retorno que poderiam oferecer abordagens mais simples e acessíveis”, afirmou a agência em julho.

A Dra. Briony Horgan, da Universidade Purdue, ressalta que os cientistas só podem aprender até certo ponto à distância. O veículo explorador, que custou cerca de 2,4 bilhões de dólares, não possui os instrumentos necessários para análises definitivas. “Podemos continuar realizando esses estudos e obtendo essas pistas, mas nunca saberemos com certeza até recebermos as amostras de volta”, afirmou Horgan.

A busca por bioassinaturas

Os cientistas consideram o Sapphire Canyon promissor devido aos pontos de redução, que na Terra se formam pela atividade microbiana. “Quando há matéria orgânica alojada em sedimentos ou solo enterrado e os micróbios começam a digerir parte dessa matéria orgânica, eles formam esses halos e manchas esbranquiçadas”, explicou Broz, coautor de um estudo publicado em setembro de 2025. Em julho de 2024, o Perseverance perfurou a amostra a partir de uma rocha chamada Cheyava Falls.

Trazer o material à Terra é a única forma de determinar se as características foram formadas por vida ou por processos abióticos. O desafio é comparado ao meteorito Allan Hills 84001, que continha marcas que foram erroneamente interpretadas como compostos orgânicos. “O ideal é poder aplicar todas as técnicas possíveis nos melhores laboratórios”, disse Ashwin Vasavada, cientista do projeto Curiosity.

Competição internacional

A China pretende trazer amostras de Marte em 2031 com a missão Tianwen-3, com lançamento previsto para 2028. A abordagem chinesa se baseia no sucesso da missão Chang’e-6. O administrador da NASA, Jared Isaacman, afirmou que tem interesse em trazer as amostras da Perseverance. “Não há dúvida de que vamos coletar as amostras, seja por robôs ou por astronautas, e certamente o prazo para isso”, declarou Isaacman.