Domingo, 25 de outubro de 2026 · São Paulo

Manejo adequado de pastagens recupera solo e amplia estoque de carbono

Pesquisa comprova que ajustes simples na pecuária aumentam a fertilidade da terra e geram reservatórios eficientes de carbono.

Em resumo

  • Estoque de carbono no 1º metro do solo subiu de 102 para 162 toneladas por hectare entre 2011 e 2020 em área de intensificação moderada.
  • Nova técnica baseada na espectroscopia no infravermelho próximo (NIRS) torna mais rápida e barata a medição de carbono no solo.
  • Capacidade de troca catiônica (CTC) da pastagem bem manejada foi cerca de 250% maior do que a da pastagem degradada na camada superficial.

Transformar pastos degradados em áreas férteis é um caminho prático para unir a produção pecuária à sustentabilidade ambiental. Experimentos de longa duração realizados no interior paulista revelam que ajustes simples no cuidado com o solo e na quantidade de animais não só recuperam a produtividade da terra, mas a convertem em um eficiente reservatório de carbono. Além de beneficiar o produtor, essa linha de pesquisa desenvolveu métodos mais simples e baratos para medir o carbono retido no solo, facilitando o futuro acesso de fazendeiros ao mercado de créditos de carbono.

Os estudos fazem parte do Projeto Temático “Entendendo sistemas intensificados e integrados de produção: do mundo quântico à agricultura de baixa emissão de carbono”, apoiado pela Fapesp por meio do Programa Fapesp de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais, e coordenado pelo físico Ladislau Martin Neto, pesquisador da Embrapa Instrumentação, unidade de pesquisa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária focada em unir a física, a química, a ciência dos materiais e as engenharias ao setor agropecuário. Para entender o impacto prático do manejo na retenção de carbono no solo, os pesquisadores compararam diferentes cenários de produção. As áreas avaliadas variaram desde pastagens degradadas –caracterizadas pela ausência de adubação e pelo pastejo contínuo do gado– até sistemas com diferentes níveis de tecnologia e intervenção.

Esses modelos recuperados incluíram a chamada “intensificação moderada”, que combina a correção da acidez do solo, uso de fertilizantes e uma quantidade equilibrada de animais no pasto, e sistemas de alta intensificação, submetidos a irrigação artificial, doses elevadas de nitrogênio e uma grande densidade de gado. “Em uma das áreas estudadas, caracterizada como de moderada intensificação, o estoque de carbono no 1º metro do solo [a partir da superfície] aumentou de 102 para 162 toneladas por hectare entre 2011 e 2020 –um acréscimo médio de aproximadamente duas toneladas de carbono por hectare ao ano [em relação ao estoque da pastagem degradada]. Análises permitiram demonstrar que parte importante desse carbono adicional veio da própria forrageira [capim destinado à alimentação animal] cultivada na pastagem”, conta Martin Neto.

A pesquisadora Patrícia Perondi Anchão Oliveira, que lidera o experimento, explica que o modelo vencedor em acúmulo de carbono (com doses moderadas de adubo e lotação equilibrada) não exige tecnologias inacessíveis. Pelo contrário, ele comprova a eficiência de uma fórmula familiar ao produtor brasileiro: a união de capins adaptados ao nosso clima com o gado de origem indiana, como o nelore. “Esse já é um caso de sucesso na pecuária brasileira, um sistema amplamente adotado pelos pecuaristas”, comenta a pesquisadora, ressaltando o potencial ambiental dessa base produtiva quando aliada ao manejo correto do solo. O objetivo dos pesquisadores foi descobrir não apenas quanto carbono havia sido acumulado no solo, mas como ele estava armazenado.

Depois de mais de duas décadas de manejo, a pastagem apresentou 148 toneladas de carbono por hectare na forma de matéria orgânica associada aos minerais do solo, contra 92 toneladas na pastagem degradada. O resultado mostra o grande potencial de recuperação de áreas já convertidas para a pecuária. A relevância do achado está justamente em mostrar que é possível recuperar a qualidade de solos já degradados e aumentar sua capacidade de armazenar carbono sem que isso implique avançar sobre áreas de vegetação nativa. O título do projeto reúne duas vertentes que parecem, à 1ª vista, muito distantes. De um lado está o “mundo quântico”, no qual técnicas derivadas da física permitem investigar átomos, moléculas e interações entre a matéria orgânica e os minerais. Do outro, estão as extensas áreas de pastagens e o desafio de produzir com maior eficiência e menor emissão de gases de efeito estufa.

Como o carbono se esconde no solo?

Como explica Martin Neto, o solo é um ambiente extraordinariamente complexo. A matéria orgânica representa só uma pequena fração de sua massa, distribuída de forma extremamente heterogênea. “Saber que o teor de carbono aumentou, portanto, não responde a uma questão central para a mitigação climática. Esse carbono permanecerá ali por longo tempo ou será logo emitido para a atmosfera na forma de CO2?”, questiona o pesquisador. É preciso levar em conta que a matéria orgânica do solo se encontra em diferentes estágios de decomposição. Uma parte pode ser rapidamente metabolizada pelos microrganismos e devolver o carbono à atmosfera. Outra pode estabelecer interações com partículas minerais, especialmente argilas e óxidos de ferro e alumínio.

Formam-se então associações organominerais que dificultam a decomposição e favorecem uma permanência mais longa do carbono no solo. “Hoje, sabemos pela ciência que um dos mecanismos mais importantes é justamente a associação da matéria orgânica com o componente mineral. Por meio de ligações e interações químicas, esse carbono pode ser retido por longo tempo. É isso que estamos procurando demonstrar”, resume o pesquisador. Para enxergar essas estruturas em escala nanométrica, os pesquisadores recorreram a uma técnica denominada espectrometria de massa de íons secundários (NanoSIMS). Como o equipamento utilizado ainda não está disponível na América do Sul, as análises foram feitas na Universidade Técnica de Munique, na Alemanha, com apoio da Fapesp, durante estágio do hoje pós-doutorando Lucas Raimundo Bento.

A técnica produz mapas químicos em escala nanométrica, permitindo localizar matéria orgânica e elementos minerais em partículas individuais do solo, e revelou algo inesperado. Apesar dos grandes estoques de carbono, as manchas de matéria orgânica cobriram uma pequena fração das superfícies minerais observadas. Nas condições avaliadas, a cobertura chegou, no máximo, a cerca de 3% da superfície mineral na camada superficial. “O resultado mostra que a formação da matéria orgânica associada aos minerais não depende simplesmente da existência de carbono e de superfícies minerais disponíveis. A entrada de compostos orgânicos no solo e a atividade dos microrganismos têm papel decisivo no processo. A pequena proporção ocupada também indica que, nas condições estudadas, ainda existe ampla superfície mineral disponível para novas associações com matéria orgânica, sugerindo potencial para aumentos adicionais do estoque de carbono”, comenta Martin Neto.

O ganho não é só climático. A matéria orgânica desempenha papel central na fertilidade dos solos tropicais altamente intemperizados –ou seja, desgastados pela ação contínua da chuva e do calor, o que os torna naturalmente mais pobres em nutrientes. Um indicador importante é a CTC (capacidade de troca catiônica), que expressa, de forma simplificada, a capacidade do solo de reter nutrientes eletricamente carregados, como cálcio, magnésio e potássio, deixando-os disponíveis para as plantas. Na camada superficial, até 5 centímetros de profundidade, a CTC da pastagem bem manejada foi aproximadamente 250% maior do que a da pastagem degradada. “O carbono constitui aproximadamente metade da estrutura química da matéria orgânica do solo –componente fundamental para sua fertilidade e atividade biológica. Às vezes, o produtor rural ouve falar em carbono e pensa: ‘Não tenho nada a ver com isso’. Mas estamos falando de matéria orgânica. E a matéria orgânica é a vida do solo. Nos solos tropicais, nos quais a fração mineral pode apresentar capacidade relativamente baixa de reter nutrientes, a matéria orgânica assume importância ainda maior. Aumentá-la significa melhorar a retenção de nutrientes e favorecer a produtividade”, argumenta o pesquisador.

Forma-se assim um círculo potencialmente virtuoso: o manejo adequado aumenta a cobertura vegetal; mais biomassa significa maior entrada de resíduos e raízes no solo; parte desse material é transformada pelos microrganismos e estabilizada junto aos minerais; e isso, além de reter carbono, melhora as condições para nova cobertura vegetal. Mas qual é o limite desse processo? Quanto mais intensiva a produção animal, maior o armazenamento de carbono? Os resultados mostram que não. Em outro estudo, publicado na revista Soil & Tillage Research, também oriundo do experimento de campo de longa duração dos sistemas intensificados de pastagens, os pesquisadores compararam diferentes combinações de fertilização nitrogenada, irrigação e lotação animal.

Uma das áreas recebeu alta quantidade de nitrogênio, irrigação e elevada quantidade de animais. Outra também recebeu alta fertilização e alta lotação, mas foi mantida em regime de sequeiro (sistema de cultivo sem irrigação artificial, que depende essencialmente da água das chuvas). Uma 3ª recebeu 200 quilos de nitrogênio por hectare ao ano e foi submetida à lotação moderada. Foi a última que apresentou o melhor resultado. Na pastagem degradada, o estoque foi de cerca de 102 toneladas de carbono por hectare no 1º metro do solo. No sistema de alta lotação sem irrigação, chegou a 139 toneladas. Com lotação moderada, atingiu 162 toneladas por hectare. Já a intensificação mais elevada, combinando irrigação, alta fertilização nitrogenada e alta lotação, permaneceu em 111 toneladas e não apresentou aumento significativo em relação à pastagem degradada.

“O resultado é interessante porque a pastagem que deu o melhor acúmulo de carbono não foi aquela em que colocamos mais nitrogênio nem aquela com maior lotação animal. O equilíbrio parece ser o mais importante”, afirma Martin Neto. Há uma explicação biológica plausível. Quando a pressão de pastejo é muito alta, os animais removem uma parcela maior da biomassa e reduzem a capacidade de recuperação das plantas. Com uma lotação moderada, a forrageira consegue recompor mais rapidamente sua parte aérea e seu sistema radicular, aumentando a quantidade de carbono introduzida no solo. Para comprovar isso, os pesquisadores analisaram a “assinatura isotópica” do carbono –uma espécie de impressão digital química deixada pelas plantas no solo.

Funciona assim: durante a fotossíntese, as árvores da mata original e os capins da pastagem absorvem versões ligeiramente diferentes do elemento carbono presentes na atmosfera. Ao analisar a terra, os cientistas conseguem ler essa marca e distinguir com precisão matemática qual parte do carbono armazenado ali é uma herança antiga da floresta e qual parte foi recém-injetada pelas raízes da forrageira. Essa estratégia permite distinguir o carbono remanescente da vegetação original daquele incorporado posteriormente pela pastagem. E a comparação entre os sistemas de alta e moderada lotação apontou vantagem para o 2º. Os lotes sob lotação moderada somaram 52 toneladas de carbono por hectare nos primeiros 30 centímetros do solo, contra 37 toneladas no sistema de alta lotação. “Aprofundando a medição a até 1 metro abaixo da superfície, verificamos, pela análise isotópica, que esse aporte de carbono estava vindo substancialmente das gramíneas”, destaca Martin Neto.

Além do interesse que apresentam para a gestão ambiental, esses resultados têm implicação econômica. Menos fertilizantes nitrogenados significam menor custo, enquanto a lotação adequada preserva a capacidade de recuperação natural do pasto. O ponto mais favorável para o armazenamento de carbono não parece estar, portanto, na maximização isolada de nenhum dos insumos, mas no equilíbrio entre produção de biomassa, consumo pelos animais e restituição de matéria orgânica ao solo.

Medir sem abrir trincheiras

Mas demonstrar que determinado manejo sequestra carbono é uma parte da história. Para que essa remoção possa ser contabilizada em programas climáticos ou remunerada por meio de créditos de carbono, é preciso medi-la de forma confiável, repetível e economicamente viável. E aqui surge um obstáculo de escala. O método de referência internacional exige determinar tanto a concentração de carbono como a densidade do solo. Para isso, frequentemente, são abertas trincheiras de até 1 metro e retiradas amostras deformadas e indeformadas do solo. A análise do carbono pode exigir equipamentos laboratoriais, gases de alta pureza ou procedimentos químicos. Repetir esse protocolo em áreas muito extensas torna-se caro e operacionalmente difícil.

Um 3º estudo, publicado em abril no Microchemical Journal, propôs uma alternativa baseada na espectroscopia no infravermelho próximo (NIRS). Ele busca justamente tornar mais rápida e barata essa etapa de medição, relato e verificação, utilizando a NIRS para estimar os estoques de carbono. A NIRS faz isso medindo como a amostra absorve e reflete diferentes comprimentos de onda do infravermelho próximo, padrão que pode ser correlacionado à quantidade de matéria orgânica presente. A tecnologia pode, assim, contribuir para transformar o carbono adicional retido no solo em vantagem econômica. A solidez dos resultados se deve aos experimentos de longa duração. E isso é essencial porque mudanças nos estoques de carbono do solo são lentas e podem ser mascaradas por variações de curto prazo.

“A técnica utiliza radiação na faixa do infravermelho, de 780 a 2.500 nanômetros, que é aplicada na amostra de solo e registra como diferentes comprimentos de onda são absorvidos. O espectro resultante contém informações sobre os grupos químicos constituintes da amostra, incluindo constituintes da matéria orgânica e minerais dos solos. Com modelos matemáticos adequadamente calibrados, essas informações podem ser relacionadas ao estoque de carbono presente no solo”, explica Martin Neto, que supervisionou o bolsista de pós-doutorado da Fapesp, Vitor da Silveira Freitas, na execução do estudo que levou à publicação. A inovação do estudo simplificou o trabalho de campo. No método convencional, calcular o estoque de carbono exige medir duas coisas separadamente: a quantidade de carbono e a densidade do solo. Medir a densidade é a etapa mais trabalhosa, pois o cientista precisa retirar blocos de terra totalmente intactos, as chamadas “amostras indeformadas”, usando cilindros de metal. O grande diferencial do novo método foi usar a tecnologia NIRS para calcular o carbono total de uma só vez, pulando a medição da densidade. Com isso, os pesquisadores podem usar simplesmente terra solta, a “amostra de

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