Em entrevista ao CNN Agora, o professor e pesquisador da Universidade de Temple Lucas de Souza Martins disse que o governo Trump está tão fragilizado que a oposição ganha espaço, mas não é vista necessariamente como uma plataforma de mudança. Para ele, apesar dos democratas liderarem as pesquisas das midterms, o partido não tem líderes partidários. Fontes revelaram à CNN que estrategistas do Partido Republicano estão surpresos com a indignação dos eleitores em estados tradicionalmente conservadores. Uma fonte próxima aos estrategistas disse que, durante uma sondagem em estados republicanos, a maioria dos eleitores culpou a corrupção e os bilionários pela alta no custo de vida.
Republicanos em estados como Texas e Flórida afirmaram estar especialmente preocupados com o eleitorado da classe trabalhadora, principalmente aqueles que têm filhos. Essa parcela da população é uma das mais afetadas pelo aumento do preço dos combustíveis e dos alimentos. Os republicanos temem que os eleitores estejam se sentindo ignorados por Donald Trump, que assumiu o segundo mandato com a promessa de melhorar a economia.
Questão econômica domina o cenário político
As últimas pesquisas mostram que os democratas podem assumir o controle da Câmara na eleição de novembro. Na disputa pelo Senado, candidatos democratas também têm se mostrado bastante competitivos, mesmo em estados de tradição republicana. Lucas de Souza Martins, avaliou que o tema central dessas eleições é uma continuidade do que foi discutido nas eleições presidenciais americanas de 2024.
“O tema principal daquela campanha, e continua sendo o tema político principal nos Estados Unidos, é precisamente a questão do custo de vida, a questão da inflação, a dificuldade de se alcançar o sonho americano“, afirmou. Segundo o professor da Universidade de Temple, enquanto Donald Trump apresenta dificuldades para traduzir suas medidas econômicas ao eleitorado independente — medidas que, até o momento, não surtiram efeito na percepção de mudança de vida nos Estados Unidos —, o espaço para a oposição cresce naturalmente.
“Logicamente que isso oferece mais espaço para quem não é governo. E, neste caso, quem se beneficia diretamente são os democratas, o Partido Democrata”, disse o especialista.
Eleitorado independente e o “pêndulo” político
O pesquisador destacou o comportamento do eleitorado mais vulnerável economicamente, composto por negros, latinos e trabalhadores do interior, como um fator determinante. Esse grupo, descrito por ele como um “pêndulo”, elegeu Joe Biden em 2020 e migrou para Donald Trump em 2024, motivado pela insatisfação econômica. “Este eleitorado é o mais sensível quando você não tem melhora na percepção e na prática com relação ao custo de vida nos Estados Unidos”, explicou Lucas de Souza Martins. Para o especialista, esses eleitores são ideologicamente independentes e tendem a votar em quem apresenta soluções econômicas concretas.
Democratas sem rosto definido para liderar a oposição
Apesar do cenário favorável nas pesquisas, Lucas de Souza Martins alertou que o bom desempenho democrata nas midterms não representa necessariamente um fortalecimento do partido. “O que acontece é que o governo hoje é tão fragilizado politicamente que, naturalmente, quem é oposição acaba se beneficiando”, afirmou. O especialista apontou ainda uma divisão interna significativa entre os democratas socialistas, que emergem nas grandes cidades, e uma ala mais conservadora do partido.
Para Lucas de Souza Martins, o problema central do Partido Democrata é a ausência de lideranças reconhecidas. “A oposição política americana não possui um rosto principal, não tem figuras principais que o eleitorado nas ruas possa apontar que venham precisamente desse partido democrata”, concluiu. Diante disso, o especialista avalia que o país vive um cenário de muita incerteza em relação a quem serão os principais nomes na corrida para a sucessão de Donald Trump.



