Segunda-feira, 19 de outubro de 2026 · São Paulo

Bastidores do DVD ‘1000 Trutas, 1000 Tretas’, dos Racionais MC’s

Projeto histórico do rap nacional lançado em 7 de outubro de 2006 enfrentou superlotação, problemas técnicos e custou R$ 400 mil ao grupo.

Em resumo

  • O primeiro DVD dos Racionais MC's foi lançado em 7 de outubro de 2006.
  • A gravação original sofreu com superlotação e cabos danificados em São Paulo.
  • O projeto custou R$ 400 mil na época e hoje acumula milhões de reproduções.

Há 20 anos, em 7 de outubro de 2006, os Racionais MC’s lançavam seu primeiro DVD, “1000 Trutas, 1000 Tretas”. Nascido já como um momento histórico do rap nacional, o projeto teve mais de quatro anos de gestação e foi construído sobre alguns dos principais pilares do grupo: construção coletiva entre os seus, pouca mídia e um retrato fiel do seu tempo.

O caos não planejado

No início de 2002, os Racionais MC’s lançaram “Nada Como um Dia após o Outro Dia”, álbum duplo que sucedeu o aclamado “Sobrevivendo no Inferno” (1997). Para coroar o momento, Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay decidiram gravar um DVD. A gravação aconteceu no galpão Casaluce, no Brás, região central de São Paulo, que comportava cerca de três mil pessoas, mas recebeu 10 mil.

“A falta de hits e a preocupação com o roteiro do DVD não ajudaram o show a decolar. Isso, somado ao cansaço pelo acúmulo de horas em que as pessoas estavam em pé, refletiu-se numa receptividade apenas morna da plateia em parte do show”, disse a crítica da época. Contudo, a superlotação gerou um problema técnico que inviabilizou a produção do DVD. “Com a superlotação, alguns cabos acabaram sendo pisados e danificados, comprometendo a captação, e aquele material não pôde virar o DVD. A gente podia ter parado ali, mas decidiu fazer de novo”, diz Mano Brown.

A nova gravação

A sequência nasceu com os Racionais abraçando a equipe da primeira gravação, começando pelo diretor Roberto T. Oliveira. Entre 2002 e 2006, o grupo realizou cerca de 400 shows, incluindo turnê pelo Japão, EUA e Europa. No Brasil, duas regras eram sagradas: ingressos baratos (no máximo R$ 20) e nada de polícia no palco. O grupo decidiu gravar sua segunda diária em abril de 2004, durante show no Sesc Itaquera, Zona Leste de São Paulo.

Ao todo, a produção custou R$ 400 mil na época (cerca de R$ 1,5 milhão corrigidos). O cenário foi emulado por Flávio Sadella com inspiração no single “Vida Loka Pt. 2”. A abertura contou com Jorge Ben Jor, cuja participação foi decidida enquanto cortava o cabelo no camarim, cantando “Abenção Mamãe, Abenção Papai”. O encerramento teve Ice Blue se jogando no público, momento que quebrou a câmera do cinegrafista Rodney Suguita.

Termômetro de sucesso

O intervalo entre o show e o lançamento ocorreu porque o projeto era um híbrido de show e documentário. Hoje, o registro soma mais de 136 milhões de reproduções no Spotify, e o canal no YouTube ultrapassa 2,9 bilhões de visualizações. Em 2006, ter material circulando nas banquinhas era sinônimo de sucesso, ao lado de fenômenos como “Calcinha Preta Vol. 2” e “Tropa de Elite”.