Segunda-feira, 19 de outubro de 2026 · São Paulo

Como está a economia da Argentina no governo de Javier Milei

Crescimento e queda da inflação contrastam com o aumento da pobreza e do desemprego na Argentina.

Em resumo

  • O PIB argentino cresceu 2,3% no primeiro trimestre de 2026, mas caiu 0,6% no segundo trimestre ante os três meses anteriores.
  • A taxa de desemprego na Argentina chegou a 7,9% no segundo trimestre de 2026, atingindo cerca de 1,8 milhão de pessoas.
  • Atividades ligadas às exportações avançam no país, enquanto setores dependentes do mercado interno enfrentam dificuldades.

A economia da Argentina virou tema do primeiro debate presidencial para o segundo turno das eleições brasileiras. Ao questionar candidato Flávio Bolsonaro (PL) sobre sua proximidade com Javier Milei, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) perguntou se o adversário pretendia reproduzir no Brasil a política econômica adotada pelo argentino.

A discussão ocorreu depois de Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, apontar o governo de Milei como inspiração para medidas de redução de impostos e burocracia. Os indicadores, porém, revelam um quadro mais complexo: a economia argentina voltou a crescer e a inflação desacelerou, mas a pobreza e o desemprego aumentaram, enquanto o consumo interno e setores importantes para a geração de empregos enfrentam dificuldades.

Economia cresce, mas perde fôlego

O Produto Interno Bruto (PIB) argentino cresceu 2,3% no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior. No segundo trimestre, a alta foi de 2% na mesma base de comparação, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec). Os resultados positivos, porém, escondem uma perda de ritmo. Entre abril e junho, o PIB caiu 0,6% em relação aos três primeiros meses do ano, já descontados os efeitos sazonais.

O consumo privado recuou 2,4%, o consumo público diminuiu 2,3% e os investimentos caíram 0,8%. Na comparação anual, a formação bruta de capital fixo — indicador dos investimentos realizados na economia — teve queda de 11,1%. A composição do crescimento também ajuda a entender esse cenário. No primeiro trimestre, agropecuária, pesca, mineração e intermediação financeira estiveram entre os principais motores da expansão, enquanto a indústria de transformação recuou 1,7% e o comércio varejista caiu 0,3%.

No segundo trimestre, atividades ligadas às exportações voltaram a se destacar: a pesca cresceu 44,7%, a mineração e a extração em pedreiras avançaram 16,4%, e a agropecuária teve alta de 6,9%. As exportações de bens e serviços aumentaram 13,7%, enquanto as importações diminuíram 8,6%. Em sentido contrário, a indústria manufatureira recuou 2,1%.

Os números apontam para uma recuperação desigual. Enquanto atividades ligadas às exportações avançam, segmentos mais dependentes do mercado interno enfrentam dificuldades.

Desemprego e informalidade pressionam trabalhadores

O mercado de trabalho também mostra os limites da recuperação. A taxa de desemprego chegou a 7,9% no segundo trimestre de 2026, ante 7,6% no mesmo período de 2025, segundo o Indec. A estimativa é que aproximadamente 1,8 milhão de pessoas estivessem desempregadas nos 31 aglomerados urbanos acompanhados pelo instituto. Além disso, quase metade da população economicamente ativa trabalha na informalidade, sem vínculo formal de emprego.

O quadro combina, portanto, uma inflação muito menor do que a registrada no início do governo Milei com dificuldades para transformar a estabilização econômica em melhora contínua das condições de vida.