Segunda-feira, 19 de outubro de 2026 · São Paulo

O que aconteceu com o experimento do bitcoin em El Salvador

Cinco anos após adotar a criptomoeda, El Salvador torna aceitação facultativa, e promessas de Bukele não avançam.

Em resumo

  • El Salvador voltou a ter o dólar como única moeda oficial e a aceitação do bitcoin passou a ser facultativa.
  • As remessas via carteiras digitais somaram US$ 23,1 milhões entre janeiro e abril de 2026, representando 0,7% do total.
  • O governo acumulava 7.798,37 bitcoins, avaliados em US$ 636 milhões (R$ 3,17 bilhões), até a última quinta-feira (8/10).

Cinco anos depois, o dólar voltou a ser a única moeda oficial de El Salvador, a aceitação do bitcoin passou a ser facultativa e a promessa de construir uma cidade futurista, abastecida pela energia geotérmica de um vulcão e dedicada à mineração da criptomoeda, nunca saiu do papel. O presidente Nayib Bukele prometeu em março de 2021, na conferência Bitcoin 2021 em Miami, na Flórida, Estados Unidos, que a adoção traria “prosperidade, liberdade econômica e inclusão financeira”.

Em junho de 2021, a Assembleia Legislativa aprovou a lei que tornou a criptomoeda moeda oficial ao lado do dólar. O governo criou um fundo de US$ 150 milhões (R$ 748 milhões), ofereceu US$ 30 (R$ 150) por cidadão para a carteira Chivo e destinou US$ 50 milhões (R$ 249 milhões) para caixas eletrônicos. No entanto, pesquisas do Iudop e relatórios do NBER mostraram baixa adesão inicial, enquanto Bukele continuava comprando bitcoin com dinheiro público.

Em janeiro de 2023, a Assembleia aprovou a Lei de Emissão de Ativos Digitais para os “títulos vulcão” e a construção da Bitcoin City no vulcão Conchagua. Segundo Carlos Acevedo, ex-presidente do Banco Central, “se considerarmos os motivos apresentados por Bukele para adotar o bitcoin, não há dúvida de que o projeto fracassou”. Pesquisas de 2024 e 2025 indicaram que 91,8% dos salvadorenhos não usaram a criptomoeda no ano anterior.

As remessas enviadas por salvadorenhos no exterior por carteiras digitais somaram US$ 23,1 milhões entre janeiro e abril de 2026 (alta de 44,3%), mas representaram apenas 0,7% dos US$ 3,286 bilhões totais do período. Até a última quinta-feira (8/10), o país acumulava 7.798,37 bitcoins, avaliados em US$ 636 milhões (R$ 3,17 bilhões). O economista Carlos Acevedo ressaltou: “Pelo menos é importante destacar que não houve perda de dinheiro”.

Em dezembro de 2024, El Salvador fechou um acordo de US$ 1,4 bilhão (R$ 6,98 bilhões) com o FMI sob a condição de reduzir riscos do bitcoin. A Assembleia alterou leis e a criptomoeda perdeu o curso legal, tornando-se de aceitação voluntária. Em setembro, o governo transferiu o controle da carteira Chivo para a empresa privada Linguard Labs, mantendo participação estatal e planejando um relançamento.