Segunda-feira, 19 de outubro de 2026 · São Paulo
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Flávio Bolsonaro nega golpe e fala sobre propostas em sabatina na TV

Candidato abordou fim da reeleição, escala 6x1, desarmamento, queimadas e relações com Daniel Vorcaro e políticos do Rio de Janeiro.

Em resumo

  • Flávio Bolsonaro negou que o 8 de janeiro tenha sido um golpe e defendeu Proposta de Emenda à Constituição para extinguir a reeleição.
  • O candidato declarou apoio ao fim da escala 6x1 de trabalho e afirmou que manterá todas as leis trabalhistas vigentes no país.
  • O postulante propôs cortar R$ 200 bilhões da dívida pública e justificou repasses do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para projeto audiovisual.

O candidato à presidência da República pelo PL, Flávio Bolsonaro, foi sabatinado na noite desta sexta-feira (16) pela TV Globo, em entrevista com pouco mais de 40 minutos de duração. Durante o programa, o postulante negou a ocorrência de uma tentativa de golpe de Estado no dia 8 de janeiro de 2023, afirmou que não disputará uma reeleição caso seja eleito e disse que não teve “nada de errado” em pedir R$ 130 milhões ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, atualmente preso.

Questionamentos sobre o 8 de janeiro e composição de governo

Ao ser questionado sobre os atos do dia 8 de janeiro, quando uma multidão invadiu e depredou prédios públicos na Esplanada dos Ministérios exigindo a ascensão de seu pai, Jair Bolsonaro, ao poder, o candidato declarou que o episódio não configurou uma tentativa de golpe de Estado. Ele chamou de “farsa” o julgamento do pai, condenado a 27 anos de prisão. “Essa farsa, a história vai mostrar que foi totalmente armado para tentar tirar Bolsonaro da vida pública”, disse Flávio, minimizando a situação ao declarar que “uma senhora com bíblia” não estava tentando dar um golpe. Durante a ocasião, milhares de pessoas agrediram policiais e vandalizaram as sedes do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal (STF).

Flávio afirmou que não tratou com o pai sobre uma eventual vaga em seu governo, embora em declarações anteriores tenha dito que concederia indulto a Jair Bolsonaro. Ele não confirmou se o ex-presidente ocuparia um cargo no Executivo. Além disso, informou que seu irmão, Eduardo Bolsonaro, não será o ministro das Relações Exteriores caso seja eleito. “Ele é um perseguido político”, afirmou o candidato sobre o irmão, acrescentando que “um dia será reconhecido como alguém que se sacrificou para defender a democracia”. Eduardo mora atualmente nos Estados Unidos e é condenado no Brasil por coação no curso do processo, após a Justiça entender que ele atuou contra os interesses do país ao estimular o tarifaço do governo norte-americano contra o Brasil como represália caso Jair Bolsonaro fosse condenado — o que resultou na sobretaxação de produtos brasileiros exportados para os EUA.

Escala de trabalho e segurança pública

A respeito da escala 6×1 de trabalho, Flávio, que é senador, posicionou-se favorável à medida, após ter falado contra o fim desse modelo durante meses. A proposta foi aprovada no Senado nesta semana e promulgada na manhã de hoje. Ele afirmou que ouviu trabalhadores em vários cantos do país antes de votar a favor da matéria e defendeu a liberdade de escolha do trabalhador. “Eu sempre defendi mais liberdade, inclusive para os trabalhadores montarem sua jornada de trabalho. Isso pressupõe que a escala 6×1 seja extinta”, disse, assegurando que manterá todas as leis trabalhistas.

Na área de segurança pública, o candidato ressaltou a promessa de classificar as facções criminosas Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações narcoterroristas, sem explicar como isso vai alterar, na prática, o combate ao crime organizado. Também defendeu mudanças na lei do desarmamento para facilitar o acesso do cidadão a armas, declarando que “o problema é que as armas estão nas mãos das pessoas erradas”. Questionado, evitou falar sobre seu apoio ao projeto que retira a marcação de cápsulas de balas das forças de segurança, medida que dificultaria investigações ao prevenir desvios de munições. Sobre suas relações com políticos do Rio de Janeiro investigados, como o ex-deputado Rodrigo Bacellar e o deputado eleito Márcio Canella, Flávio disse ter ficado surpreso com as ligações dos amigos com o Comando Vermelho, afirmando que eles têm direito à ampla defesa, mas que a Justiça não pode poupar nenhum culpado.

Financiamento, dados ambientais e reeleição

As relações do candidato com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro também foram abordadas na entrevista. Flávio continuou afirmando que tudo relativo ao dinheiro repassado por Vorcaro (cerca de R$ 60 milhões) para financiar o filme Dark Horse já havia sido esclarecido. Ele explicou que chegou ao nome do investidor enquanto prospectava nomes no mercado: “E ele concordou quando não havia nada de errado [com o banco]”. Contudo, o candidato continuou cobrando valores a Vorcaro mesmo após a revelação de suspeitas de fraude no Banco Master.

Na pauta ambiental, Flávio acusou o atual governo de ser recordista em queimadas na Amazônia. “Esse foi o outubro com maior queimada na história da nação brasileira”, afirmou. No entanto, dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que mede focos de calor desde 1989, mostram que a Amazônia registrou 9.544 focos até 15 de outubro, valor distante dos maiores números históricos.

Flávio Bolsonaro reiterou também o desejo de extinguir a possibilidade de reeleição para presidente da República, deixando em aberto se a duração do mandato mudaria, atribuindo essa decisão ao Congresso Nacional. “Partiu de mim apresentar uma Proposta de Emenda à Constituição onde acaba a reeleição para presidente. E aí depende do congresso a duração do mandato, se vai ser de quatro anos ou não”. Segundo ele, a regra valeria para seu mandato, caso vença, e proibiria a candidatura de parentes do presidente até o terceiro grau na sequência. O candidato, de 45 anos, soma 23 anos de mandatos como deputado estadual e senador, mas declarou não ter apego ao poder.

Propostas econômicas e almoço institucional

Para a economia, o candidato do PL defende cortar mais de R$ 200 bilhões da dívida da União vendendo imóveis públicos abandonados. Declarou também que poderá arrecadar “R$ 100 bilhões de largada” com a exploração da Margem Equatorial, sem considerar que a Petrobras prevê o início da exploração apenas a partir de 2033. Flávio afirmou que vai extinguir pelo menos dez ministérios e disse que seu pai cortou milhares de cargos em comissão. Porém, checagem do UOL demonstrou que o governo de Jair Bolsonaro aumentou esse tipo de contratação, passando de 31,8 mil cargos em 2019 para 46,2 mil em 2022.

Horas antes da sabatina, o candidato esteve em um almoço com executivos da Rede Globo, encontro confirmado pela emissora após vazamento na imprensa. Flávio foi recebido pelo presidente do Grupo Globo, José Roberto Marinho, e por Paulo Tonet, vice-presidente de Relações Institucionais. A Globo informou que nenhum integrante do jornalismo participou da reunião, que pedidos de visitas institucionais fazem parte da rotina dos executivos e que encontros de cortesia com candidatos são usuais. O adversário de Flávio na disputa presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), demonstrou incômodo com a notícia. Lula foi sabatinado na emissora na quarta-feira (14) e não teve almoço prévio com diretores.