Atos de violência digital contra jornalistas e veículos de comunicação registraram um aumento de 74% na reta final do 1º turno das eleições de 2026. Nos oito dias que antecederam a votação, realizada no domingo (4.out), a média diária alcançou 327 ataques, em comparação com os 188 registrados no início da campanha. O levantamento foi divulgado nesta 4ª feira (14.out.2026) pela CDJor (Coalizão em Defesa do Jornalismo), em parceria com o Labic (Laboratório de Internet e Ciência de Dados) da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo).
O monitoramento analisou publicações e comentários no X e no Instagram entre 16 de agosto e 4 de outubro. Ao todo, foram identificados 14.182 ataques em um universo de quase 3,7 milhões de conteúdos examinados. O estudo aponta acusações recorrentes de parcialidade, manipulação e interesses financeiros como estratégias para desacreditar profissionais e empresas. Termos como “fake news”, “jornalista militante”, “imprensa militante” e “mídia golpista” foram frequentes, além de insinuações de que jornalistas ou institutos de pesquisa atuariam em troca de pagamentos, com o uso de expressões como “caiu pix” e “pesquisa comprada”.
A disputa presidencial concentrou 79,7% dos ataques classificados, totalizando 7.314 registros, enquanto 1.864 (20,3%) estiveram relacionados às eleições estaduais. Entre os veículos mais atingidos figuram g1, GloboNews, Folha de S.Paulo e CNN Brasil. O Instagram concentrou 61,8% das ocorrências (8.768), enquanto o X registrou 5.414 (38,2%). Contudo, o X apresentou maior frequência proporcional de ataques e, na última etapa do monitoramento (27 de setembro a 4 de outubro), superou o Instagram em números absolutos, com 1.382 ataques contra 1.233.
O relatório também destaca o uso de ações na Justiça Eleitoral para tentar retirar conteúdos jornalísticos do ar sob alegação de “propaganda eleitoral negativa”. O documento cita processos movidos pelo MDB de Alagoas contra a Mídia Caeté, pelo deputado federal Arthur Lira (PP-AL) contra a revista Piauí, e uma ação contra o Aos Fatos. A coalizão avalia que tais iniciativas buscam restringir informações de interesse público, embora o relatório também registre decisões judiciais que reconheceram a legitimidade da crítica e do escrutínio jornalísticos.
Ataques a mulheres jornalistas
As mulheres foram o principal alvo dos ataques individuais, representando 64,8% das agressões contra jornalistas identificados no acumulado do 1º turno, o que equivale a 2.013 dos 3.106 registros. As mensagens incluíram insultos misóginos, sexuais e, em certos casos, incentivo à violência física. Um dos episódios citados envolveu a comentarista Maria Cristina Fernandes, da GloboNews, que sofreu 226 ataques no X entre 13 e 26 de setembro após um comentário sobre Nossa Senhora Aparecida.
Restrições por plataformas
Além dos ataques, o governo federal relatou restrições impostas por plataformas digitais a perfis de jornalistas. O Observatório da Violência contra Jornalistas e Comunicadores Sociais, da Secretaria Nacional de Justiça, recebeu relatos de banimentos temporários e limitação de alcance. O caso do comunicador Eduardo Moreira, do ICL Notícias, que teve o perfil suspenso pela Meta na madrugada desta 4ª feira, gerou uma nota de repúdio da Secretaria.
“Todo cerceamento do trabalho de jornalistas e comunicadores é um ataque à democracia, e torna-se ainda mais grave durante o processo eleitoral”, afirmou a secretária Maria Rosa Guimarães.
Segundo a coordenadora, “a liberdade de imprensa não pode ficar sujeita a bloqueios opacos, decisões arbitrárias ou mecanismos de moderação sem possibilidade efetiva de compreensão e contestação”. O Observatório solicitou esclarecimentos à Meta e cobrou a criação de um canal institucional para tratar de situações urgentes durante o período eleitoral.



