A chuva causa um impacto mais severo sobre o trânsito em São Paulo do que em outras grandes metrópoles da América Latina. Um estudo da Geotab, empresa de gestão de frotas, aponta que a velocidade média dos veículos na capital paulista pode cair até 14,8% durante temporais, o pior resultado entre as cidades analisadas. O dado reflete a vulnerabilidade de uma metrópole cujo sistema viário opera próximo ao limite de sua capacidade.
Dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) indicam que a frota da capital atingiu neste ano cerca de 10,1 milhões de veículos, o maior patamar da série histórica. Em 2006, eram 4,9 milhões, um crescimento de aproximadamente 106% em duas décadas. Números da CET reforçam a relação entre o clima e o tráfego: entre os 20 maiores índices de lentidão registrados na cidade neste ano, 13 ocorreram em dias de chuva.
O levantamento da Geotab analisou mais de 3 milhões de deslocamentos de cerca de 10 mil veículos monitorados entre setembro de 2025 e fevereiro de 2026. Considerando qualquer episódio de chuva, a velocidade média caiu 3,2% em São Paulo. Em tempestades severas, a queda foi de 14,8%, superior à observada em Buenos Aires (10,4%) e na Cidade do México (7,1%).
Por que o trânsito para na chuva?
“Aqui em São Paulo a gente tem uma malha viária mais complexa em termos de rodovias que cruzam a cidade e avenidas que não estão preparadas para o fluxo que temos hoje. A frota urbana aumentou muito na última década e ainda não estamos preparados para toda essa demanda”, avalia Marcio Fugisava, gerente de expansão de mercado na Geotab. As maiores perdas de fluidez foram observadas em corredores estratégicos como o Corredor Norte-Sul, a Radial Leste e as marginais Tietê e Pinheiros.
Para o urbanista Flaminio Fichmann, assessor da presidência do Instituto de Engenharia, a chuva funciona como um gatilho para fragilidades existentes. “A gente tem um trânsito muito tensionado, sempre muito próximo ao limite da saturação. Se você tem um copo pela metade, consegue colocar mais líquido sem problema. Mas, quando ele está cheio, qualquer gota faz transbordar”, afirma. Ele aponta que parte da população migra do transporte coletivo para o carro particular em dias chuvosos, agravando o cenário.
Fugisava destaca que o crescimento do comércio eletrônico e dos serviços de entrega também contribui para o caos. “Entregas urbanas mais frequentes, até com promessa de entrega no mesmo dia, fazem com que exista uma quantidade maior de veículos circulando. A exigência do nível de serviço hoje faz com que o trânsito fique mais congestionado naturalmente. Quando chove isso vira um caos”, avalia.
Medidas de prevenção e infraestrutura
A Prefeitura de São Paulo informou, em nota, que os registros de alagamentos caíram 23% entre 2023 e 2025, passando de 822 para 632 ocorrências. A gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) declarou que, entre 2021 e setembro de 2026, foram investidos R$ 11 bilhões em obras e serviços de drenagem. O plano inclui a entrega de nove reservatórios, sendo seis piscinões e três pôlderes, além de 216 intervenções no sistema de drenagem e a limpeza de mais de 131 mil bocas de lobo, poços de visita e galerias.
Fichmann defende que a solução estrutural passa por tornar o transporte público mais atrativo, confiável e eficiente, além de investimentos em corredores de ônibus, sistemas de BRT e obras de drenagem. Fugisava, por sua vez, sugere o uso mais intensivo de tecnologia e compartilhamento de dados em tempo real entre empresas e poder público para antecipar problemas e orientar melhor os motoristas.



