O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) tinha dificuldade para tomar decisões e criticou sua posição diante do então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ, à época), segundo relatos do policial federal Jorge Chastalo Filho. As declarações estão no livro “Banho de Sol – os 580 dias de Lula na prisão”, lançado pela Editora WMF Martins Fontes. “A Dilma é muito boa para cumprir ordens, mas não para decidir. O PT optou pela lealdade e a honra, e não aceitaram fazer um acordo com o Cunha. Ele [Eduardo Cunha] queria continuar roubando, afinal, tinha muito poder como presidente do Congresso”, declarou Lula, conforme Chastalo. A conversa foi registrada em 19 de outubro de 2018, quando o petista estava preso na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba (PR).
Lula também atribuiu o impeachment de Dilma à decisão da ex-presidente de não negociar com Cunha. Na avaliação do presidente, ela entrou em uma disputa política sem ter apoio suficiente. “Se Dilma tivesse lido [A Arte da Guerra, de Sun Tzu] e aplicado alguns ensinamentos desse livro, não teria sofrido o impeachment. Ela se recusou a conversar com o Eduardo Cunha, e o deputado já havia dito que, se fosse contra ele, iria colocar o impeachment para votação. Dilma tinha pouca gente ao seu lado para brigar, menos de 70 deputados e alguns medalhões. E um bom comandante não entra na guerra quando avalia que vai perder…”, disse Lula. O impeachment da petista foi aberto em 2015, depois que Eduardo Cunha aceitou denúncia por crime de responsabilidade relacionada a decretos de crédito suplementar e às chamadas “pedaladas fiscais”. Em agosto de 2016, o Senado aprovou o afastamento definitivo da presidente por 61 votos a 20, e o vice Michel Temer (MDB) assumiu o cargo.
Procurado, o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha discordou dos relatos do livro a respeito do acordo que poderia manter Dilma na Presidência. Afirmou que Lula ou Chastalo mentem. Citou um encontro na casa do empresário Joesley Batista, no qual Lula, segundo Cunha, propôs barrar o processo. O ex-deputado disse ter recusado a proposta. Leia a nota de Cunha na íntegra: “Tudo com relação ao impeachment está descrito no meu livro ‘Tchau, querida: o diário do impeachment’ onde inclusive eu relato um encontro com o próprio Lula, a seu pedido, na casa de Joesley Batista, onde ele tentou me propor um acordo para derrotar a abertura do processo de impeachment –encontro esse ocorrido em 28 de março de 2016, 20 dias antes da data de votação na Câmara, ocorrida em 17 de abril de 2016. A sua proposta de acordo foi recusada por mim. Logo, se o policial realmente escreveu o que ouviu do Lula, me parece que ele estava mantendo o seu hábito de mentir. Se Lula não disse isso, quem está mentindo é o próprio policial. Aliás acho muito estranho esse livro, que me parece mais uma tentativa de levantar a bandeira do lava jatismo daquela quadrilha de Curitiba, que tanto fez ao país e produziu figuras execráveis, com Moro e cia.”
A assessoria de imprensa do Banco dos Brics, presidido por Dilma Rousseff, foi procurada para perguntar se gostaria de se manifestar sobre as declarações de Lula relatadas no livro, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.
Além dos episódios políticos, o livro apresenta detalhes da rotina de Lula na prisão, incluindo alimentação, exercícios físicos, leitura, visitas de familiares e conversas com policiais federais. Na introdução, Chastalo afirma que os registros representam sua percepção dos acontecimentos e reconhece que algumas conversas foram anotadas horas ou dias depois de terem ocorrido. Por isso, traz a possibilidade de imprecisões na reprodução das falas. Lula deixou a prisão em 8 de novembro de 2019, depois que o STF decidiu que a execução da pena deveria ocorrer, como regra, só depois do trânsito em julgado da condenação. Em 2021, o Supremo anulou as condenações do petista nos processos julgados pela Justiça Federal de Curitiba.

















